Vênus pode ter engolido a própria lua, aponta novo estudo

Simulações mostram que uma lua do tamanho da nossa poderia ter existido em Vênus, mas foi destruída pela força das marés.

Adicione o Futuro Astrônomo no Google
Ao adicionar o Futuro Astrônomo no Google por meio deste link, você indica que gostaria de ver mais conteúdo nosso nos resultados da Busca do Google.
Foto de Vênus em falsa cor captado pela sonda japonesa Akatsuki (Crédito: JAXA/PLANET-C Project Team)
Foto de Vênus em falsa cor captado pela sonda japonesa Akatsuki (Crédito: JAXA/PLANET-C Project Team)

Um estudo publicado no The Astrophysical Journal mostra que Vênus pode ter tido uma lua semelhante à da Terra logo depois de sua formação. A força das marés entre o planeta e o satélite, porém, teria destruído essa lua ainda nos primeiros bilhões de anos de história do Sistema Solar.

A pesquisa foi conduzida por Stephen R. Kane, da Universidade da Califórnia em Riverside, nos EUA, com Franck Selsis, Jérémy Leconte e Sean N. Raymond, do Laboratório de Astrofísica de Bordeaux, na França.

A equipe construiu um modelo matemático que simula, ao longo de 4,5 bilhões de anos, a relação entre a rotação de Vênus e a órbita de uma lua hipotética. Vênus hoje gira de forma retrógrada, ou seja, no sentido contrário ao dos outros planetas, e completa uma volta em torno do próprio eixo a cada 243 dias terrestres. O planeta não tem nenhum satélite natural.

Como uma lua pode ser destruída pelo próprio planeta

A força de maré funciona como um cabo de guerra entre o planeta e seu satélite. Quando o planeta gira mais rápido do que a lua orbita, a maré empurra a lua para mais longe, do mesmo jeito que a Lua se afasta da Terra há 4,5 bilhões de anos. Quando o planeta gira mais devagar do que a lua orbita, a maré empurra a lua para dentro, na direção do chamado limite de Roche, distância na qual a gravidade do planeta despedaça o satélite.

Os pesquisadores testaram dois modelos físicos diferentes para essa interação, batizados de constante-Q e de defasagem constante no tempo. Em ambos, uma lua com a massa da nossa Lua sobreviveria à idade do Sistema Solar se Vênus tivesse começado a girar rápido, com um período de rotação de até 12 horas.

Já uma lua mais “massuda”, com duas vezes a massa lunar, seria destruída em algo entre 30 milhões e 1,7 bilhão de anos no modelo constante-Q, dependendo da velocidade inicial de rotação de Vênus.

O que ainda falta encaixar nessa história

O estudo aponta a dificuldade de explicar o estado atual de Vênus. Isso porque é preciso satisfazer duas condições ao mesmo tempo, sendo uma que o planeta precisa ter perdido a lua e também ter desacelerado bastante sua rotação. Segundo os autores, poucas combinações de massa do satélite e velocidade de rotação inicial atendem às duas condições juntas.

Simulações de impactos gigantes (o tipo de colisão que teria formado a lua) sugerem que Vênus teria ficado com um período de rotação igual ou maior que 12 horas depois do choque. Isso coloca uma lua do tamanho da nossa exatamente na fronteira entre sobreviver e ser destruída. Nesse cenário, segundo o estudo, a ausência atual de uma lua em Vênus pode ser explicada só pela evolução das marés, sem necessidade de um segundo evento catastrófico depois da formação do satélite.

Os autores reconhecem limitações no trabalho. O modelo considera apenas marés gravitacionais e não inclui marés atmosféricas causadas pelo calor solar, que outros estudos apontam como relevantes para a rotação de Vênus. Incluir esse efeito tornaria a destruição da lua ainda mais provável, segundo os próprios pesquisadores.

Uma pista para a próxima missão a Vênus

Se uma lua foi realmente destruída, os destroços teriam caído na superfície e na atmosfera de Vênus. O estudo aponta que a missão DAVINCI, da NASA, prevista para descer na atmosfera do planeta, poderia detectar sinais dessa antiga colisão ao medir gases nobres e suas variações isotópicas.

A idade da superfície de Vênus também ajuda a fechar a linha do tempo. Como a superfície do planeta é relativamente jovem, com marcas de crateras de poucas centenas de milhões de anos, qualquer destruição de lua teria acontecido bem antes disso, no início da história do planeta, para não deixar sinais visíveis hoje.

Os autores destacam ainda que o mesmo raciocínio vale para exoplanetas parecidos com Vênus fora do Sistema Solar. Planetas rochosos que giram devagar e orbitam perto demais de sua estrela tendem a perder qualquer lua rapidamente, o que pode ter efeito direto sobre o clima e a capacidade desses mundos de manter condições estáveis para a vida.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe do Futuro Astrônomo. Astrônomo amador há mais de 30 anos, cobre descobertas científicas, missões espaciais e observação do céu desde 2002, quando lançou um dos primeiros blogs de astronomia do Brasil. Tem formação em jornalismo e está se especializando em planetologia. Também é fã de Star Trek.

0 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *