Cometa 3I/Atlas pode ser tão antigo quanto a Via Láctea
Cometa interestelar 3I/ATLAS pode ter entre 10 e 12 bilhões de anos e guardar pistas dos primeiros sistemas planetários da Via Láctea.

O cometa interestelar 3I/ATLAS, que chamou atenção ao cruzar o Sistema Solar, pode ser muito mais antigo do que parecia. Uma nova análise indica que ele talvez tenha entre 10 e 12 bilhões de anos, o que o colocaria entre os objetos mais antigos já observados desse tipo. Se a estimativa estiver correta, ele pode ter se formado poucos bilhões de anos depois do nascimento da Via Láctea.
Isso torna o 3I/ATLAS um visitante raro em mais de um sentido. Além de ser apenas o terceiro objeto interestelar já registrado passando pelo Sistema Solar, ele pode ser também um relicário de uma época muito antiga da galáxia, talvez até de um sistema estelar que já deixou de existir.
O que chamou atenção no 3I/ATLAS
Quando foi descoberto em 2025, o cometa viajava a 58 km/s em relação ao Sol. É a maior velocidade já observada para um cometa desse tipo, superando 1I/’Oumuamua e 2I/Borisov.
Essa velocidade importa porque, pela teoria, objetos interestelares muito rápidos tendem a ser mais antigos. Ao longo de bilhões de anos, eles podem passar perto de estrelas e outros corpos, sofrendo vários “empurrões gravitacionais” que aumentam sua velocidade, como se recebessem sucessivos impulsos numa jornada muito longa.
Com base nisso, astrônomos haviam estimado para o 3I/ATLAS uma idade cinemática entre 3 bilhões e 11 bilhões de anos. Agora, uma nova análise favorece a faixa mais alta desse intervalo.

A pista veio dos isótopos
A nova estimativa, disponível em pré-impressão no ArXiv, usa a composição isotópica do cometa. O estudo mediu a razão entre carbono-12 e carbono-13, além do enriquecimento de deutério na água do 3I/ATLAS. Esses dois indicadores funcionam como pistas químicas sobre a idade e a origem do objeto.
O cometa mostrou uma quantidade de carbono-12 muito maior em relação ao carbono-13 do que se vê no Sistema Solar, em discos de formação planetária próximos e até em nuvens moleculares locais. Isso sugere que ele não se formou em uma vizinhança parecida com a nossa.
A lógica é a seguinte: o carbono-13 se acumula com o tempo no meio interestelar. Portanto, um objeto com pouco carbono-13 em relação ao carbono-12 tende a ter se formado muito cedo, antes que esse enriquecimento se tornasse mais comum na galáxia.
Um fóssil da juventude da Via Láctea
Os modelos usados no estudo apontam que essa composição combina com um objeto nascido entre 10 bilhões e 12 bilhões de anos atrás. A água do cometa reforça essa ideia. O 3I/ATLAS tem uma razão deutério-hidrogênio muito acima da observada em cometas típicos do Sistema Solar.
Esse tipo de enriquecimento ocorre em ambientes extremamente frios, abaixo de 30 kelvin, o equivalente a -243 °C, e pobres em elementos pesados. Isso aponta para uma formação em uma fase muito antiga da história galáctica.
Como cometas se formam junto com planetas, o 3I/ATLAS pode ser um vestígio de um dos primeiros sistemas planetários da Via Láctea. Martin Cordiner, principal autor do estudo, disse ao Space.com, “acreditamos que materiais cometários em geral representam os blocos de construção de planetas fora da linha de neve de água no disco protoplanetário”.
O mistério continua
Mesmo com essas pistas, a origem exata do cometa provavelmente continuará desconhecida. Rastrear sua trajetória por mais de 10 milhões de anos se torna difícil por causa das interações gravitacionais com estrelas ao longo do caminho.
Ainda assim, a idade ajuda a reduzir possibilidades. Uma delas é que o 3I/ATLAS tenha vindo de uma estrela do disco espesso da Via Láctea, uma região mais antiga da galáxia. Cordiner resumiu essa hipótese de forma direta: “Isso parece mais provável quanto mais antigo ele for”.
Se essa leitura estiver certa, o 3I/ATLAS não é apenas um visitante. Ele pode ser um sobrevivente de uma era perdida da formação de planetas.
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