Nova missão quer buscar vida em vulcões de Marte
Missão Orpheus quer buscar biossinais em fossas e aberturas vulcânicas de Marte com um veículo voador de decolagem vertical.

A proposta de missão Orpheus aposta em uma ideia direta e ousada: parar de procurar vida na superfície exposta de Marte e descer até regiões vulcânicas profundas, onde o ambiente pode ter protegido sinais biológicos do frio, da radiação e dos percloratos tóxicos. Apresentado por Connor Bunn e Pascal Lee, do Instituto SETI, o conceito descreve um veículo marciano de decolagem e pouso vertical para explorar fissuras, poços e aberturas vulcânicas em Cerberus Fossae.
A proposta chama atenção porque muda o foco da busca. Em vez de insistir em um terreno árido e castigado pela radiação, a missão mira áreas subterrâneas e vulcânicas, vistas como candidatas mais fortes para abrigar vida atual em Marte.
Por que olhar para baixo, e não para a superfície
Durante décadas, a exploração marciana raspou a camada mais externa do planeta. O problema é que essa superfície parece hostil demais para sustentar vida existente hoje.
Segundo a proposta, o subsolo oferece uma chance melhor. Regiões protegidas podem preservar calor, bloquear parte da radiação e guardar materiais mais recentes, menos alterados pelo ambiente.
É por isso que a região marciana Cerberus Fossae surge como alvo principal. A área fica em Elysium Planitia e reúne alguns dos vulcões e fluxos de lava mais jovens já identificados em Marte.

Um terreno jovem e promissor
A região também abriga um enorme depósito piroclástico que representa a atividade eruptiva vulcânica mais intensa já identificada no planeta.
A erupção que teria formado esse depósito pode ter ocorrido entre 46 mil e 222 mil anos atrás. Em tempo geológico, isso é quase ontem.
Esse detalhe importa porque vulcões jovens tendem a preservar melhor materiais expelidos e possíveis biossinais.
Por que uma sonda “saltadora” pode fazer a diferença
O relevo local dificulta o uso de veículos com rodas. Um rover não desce com segurança em um poço vulcânico íngreme. Já um veículo voador pode saltar entre pontos de interesse.
Foi nesse contexto que nasceu o conceito do Orpheus, inspirado pelo sucesso do Ingenuity, que demonstrou a viabilidade do voo controlado em Marte.
O trajeto proposto começaria no depósito piroclástico, cruzaria a cratera Zunil, seguiria pelo chamado “Arquipélago de Cerberus” e terminaria no Cerberus Tholus 1, um pequeno vulcão em forma de domo.

O alvo mais intrigante
Perto do topo desse vulcão existem cinco poços e cavernas distintos, interpretados como possíveis aberturas vulcânicas.
Um deles tem cerca de 200 metros de largura e 50 metros de profundidade. Também exibe uma faixa escura difusa que se estende por 400 metros acima de sua borda.
Os pesquisadores levantam duas hipóteses para essa marca. Ela pode ser material vulcânico fresco, deixado por uma erupção recente, ou material subterrâneo recente exposto pelo vento. Nos dois casos, o local pode registrar a atividade mais recente do vulcão e, por isso, guardar o melhor material para investigação.
O que o Orpheus levaria a bordo
A carga científica foi pensada para astrobiologia e geologia. A proposta inclui uma câmera colorida omnidirecional, um espectrômetro no infravermelho próximo, radar de penetração no solo para buscar vazios subterrâneos e um detector dedicado a biossinais.
Assim, a combinação de mobilidade aérea e instrumentos especializados coloca a missão como uma das ideias mais promissoras para procurar vida atual em Marte.
Por enquanto, não há planos de adoção ou financiamento da missão. Ainda assim, o Orpheus mostra que a exploração marciana pode mirar não apenas a superfície vermelha que já conhecemos, mas os esconderijos vulcânicos onde Marte talvez ainda guarde algo vivo.
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