A Lua tem uma nova cratera e ela não foi feita pela SpaceX

Com 222 metros de largura, a cratera McGetchin surgiu em 2024 e deixou ao redor uma área de 7 km que fica mais fria durante a noite lunar.

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Foto da Cratera McGetchin captada pelo orbitador pelo Orbitador de Reconhecimento Lunar, da NASA (Crédito: NASA Goddard/Intuitive Machines/Robert Wagner)
Foto da Cratera McGetchin captada pelo orbitador pelo Orbitador de Reconhecimento Lunar, da NASA (Crédito: NASA Goddard/Intuitive Machines/Robert Wagner)

Uma rocha espacial abriu uma cratera de 222 metros na borda leste da Lua em 2024. É a maior cratera nova identificada desde 2009.

O impacto ocorreu entre 11 de abril e 22 de maio de 2024. Um cometa ou um asteroide do tamanho de um prédio de três a seis andares atingiu o solo e deixou um buraco com 43 metros de profundidade. A largura equivale a pouco mais que dois campos de futebol enfileirados.

A maior cratera recente conhecida até então media 70 metros, segundo os registros da sonda Orbitador de Reconhecimento Lunar (LRO, na sigla em inglês), da NASA. Pelos modelos de produção de crateras usados pelos pesquisadores, um impacto desse porte acontece na Lua em média uma vez a cada 132 anos.

Dois estudos publicados na revista Science Advances descrevem o achado. Os autores batizaram a formação de cratera McGetchin, em homenagem ao cientista lunar Thomas McGetchin, da era Apollo, que ajudou a explicar a formação de crateras de impacto na Lua.

Como os cientistas encontraram a cratera McGetchin

Robert Wagner, especialista em processamento de imagens da Intuitive Machines, localizou a cratera em 24 de outubro de 2025. Ele comparava imagens de antes e depois feitas pelo LRO para achar mudanças fora do padrão na superfície.

“Eu simplesmente parei, larguei tudo e comecei a investigar o que era aquela mancha”, disse Wagner à CNN.

A equipe confirmou o achado com a Câmera de Ângulo Estreito da sonda, que mediu a forma, o tamanho e as alterações no terreno. Em órbita desde 2009, o LRO já permitiu rastrear pelo menos 1.000 crateras novas e 100.000 outras mudanças na superfície lunar.

A câmera de ângulo estreito da LRO capturou uma visão de perto da cratera em 5 de dezembro de 2025 (Crédito: NASA Goddard/Intuitive Machines/Robert Wagner)
A câmera de ângulo estreito da LRO capturou uma visão de perto da cratera em 5 de dezembro de 2025 (Crédito: NASA Goddard/Intuitive Machines/Robert Wagner)

Por que a área ao redor da cratera ficou mais fria

O efeito do choque ultrapassa a borda da cratera. Ao redor dela, uma área de cerca de 7 quilômetros de diâmetro fica de 8 a 9 kelvin mais fria à noite do que o terreno vizinho, ou seja, de 8 a 9 graus Celsius a menos.

Isso ocorre porque o impacto “afofou” a camada superior do regolito, a mistura de poeira e fragmentos de rocha que cobre a Lua. Um solo menos compactado retém menos calor e esfria mais rápido durante a noite, conforme o estudo liderado por Tyler Powell, cientista planetário e pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins.

O radiômetro Diviner, instrumento térmico do LRO, começou a observar a região em 1º de novembro de 2025. Até 18 de fevereiro de 2026, a equipe reuniu dados de 43 órbitas sobre o local.

Os cientistas chamam essas áreas de pontos frios. “A grande extensão deles indica que impactos podem modificar a superfície muito além da própria cratera”, afirmou Powell.

A missão Apollo 16 reforça essa explicação. Os astronautas pousaram perto de um ponto frio associado à cratera South Ray, e as pegadas deles ficaram mais fundas ali do que em outros locais.

O grupo analisou as 21 crateras novas com mais de 20 metros registradas pelo LRO. Todas as maiores que 30 metros produziram pontos frios, que desaparecem num prazo de 100 mil a 2 milhões de anos.

O que o estudo ainda não consegue responder

O Diviner chegou à cratera cerca de um ano e meio depois do impacto, tarde demais para medir o calor residual da colisão.

Nenhum dos dois modelos térmicos da equipe reproduz com perfeição o resfriamento noturno do ponto frio. Por isso, a profundidade da alteração no solo fica numa faixa ampla, entre cerca de 3 centímetros e 39 centímetros.

O mecanismo que afofa o solo também segue em aberto. Os autores consideram um fluxo de material granular causado por impactos secundários, um fluxo de gás gerado pela colisão e um tremor sísmico capaz de levantar e soltar a camada superficial.

O que a cratera McGetchin muda para as futuras missões à Lua

A cratera mostra que a Lua ainda recebe impactos que exigem monitoramento. O dado pesa no planejamento de bases e equipamentos do programa Artemis, da NASA, que prevê a volta de astronautas à superfície lunar para missões de longa duração.

Jeff Andrews-Hanna, professor do Laboratório Lunar e Planetário da Universidade do Arizona, nos EUA, afirma que “um impacto como esse deveria ser raro na Lua, mas eventos raros acontecem. O objeto que formou esta cratera pode ter tido um tamanho próximo ao do meteoro de Chelyabinsk que explodiu sobre a Rússia”, afirmou.

O asteroide de Chelyabinsk media de 17 a 20 metros e explodiu no ar em 2013. Os destroços danificaram mais de 7.000 prédios e feriram mais de 1.000 pessoas.

“Esses eventos servem para nos lembrar de quão vulneráveis somos e de como é importante catalogar e rastrear asteroides próximos da Terra que poderiam potencialmente atingir a Terra”, disse Andrews-Hanna.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe do Futuro Astrônomo. Astrônomo amador há mais de 30 anos, cobre descobertas científicas, missões espaciais e observação do céu desde 2002, quando lançou um dos primeiros blogs de astronomia do Brasil. Tem formação em jornalismo e está se especializando em planetologia. Também é fã de Star Trek.

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