Nova descoberta muda a história de como a Terra se formou
Análise de dez isótopos indica que menos de 2% do material terrestre veio de além de Júpiter, contrariando teorias anteriores.

A Terra se formou quase inteiramente com material do Sistema Solar interno, aponta estudo da ETH Zurique, na Suíca. A pesquisa foi publicada em março de 2026 na revista Nature Astronomy.
O estudo foi assinado pelos cientistas planetários Paolo Sossi e Dan Bower, do Instituto de Geoquímica e Petrologia da ETH Zurique. Os dois compararam dez sistemas isotópicos diferentes em meteoritos e na Terra, contra apenas dois usados em análises anteriores.
Segundo o levantamento, o material vindo de além de Júpiter representa menos de 2% da massa total do planeta, e possivelmente nenhuma fração. Estudos anteriores estimavam essa contribuição entre 6% e 40%.
Como os isótopos revelam a origem de um planeta
Isótopos são átomos do mesmo elemento químico com número diferente de nêutrons, e funcionam como uma marca de origem. Com base nessa marca, os meteoritos se dividem em dois grupos, os não carbonáceos, formados no Sistema Solar interno, e carbonáceos, mais ricos em água e carbono e formados na região externa, além de Júpiter.
A análise de Sossi e Bower não encontrou evidência de troca de material entre esses dois grupos durante a formação da Terra. A composição isotópica do planeta corresponde inteiramente ao grupo não carbonáceo, e se aproxima da composição de Marte e do asteroide Vesta.
“Nossos cálculos deixam claro que o material de construção da Terra se origina de um único reservatório de material”, afirma Sossi ao Science Daily. Bower complementa que “ficamos verdadeiramente surpresos ao descobrir que a Terra é composta inteiramente de material do Sistema Solar interno, distinto de qualquer combinação de meteoritos existentes.”
O papel de Júpiter na separação do material
Os pesquisadores atribuem essa separação ao próprio Júpiter. Ao crescer rapidamente, o planeta gigante teria aberto um vão no disco de gás e poeira que envolvia o Sol jovem, e esse vão passou a funcionar como uma barreira contra o material vindo de fora.
“Nossos cálculos são muito confiáveis e dependem apenas dos dados, não de suposições físicas, já que estas ainda não são totalmente compreendidas”, diz Bower.
Uma nova dúvida sobre a água da Terra
O resultado abre uma questão que os próprios autores reconhecem não estar resolvida. Se o planeta não recebeu grande quantidade de material rico em água do Sistema Solar exterior, a água que hoje forma os oceanos precisa ter existido desde o início na região interna, mais quente, do disco protoplanetário.
Sossi e Bower ainda não têm como testar diretamente suas previsões sobre a composição de Mercúrio e Vênus, já que não existem amostras de rocha desses dois planetas disponíveis para análise. “Com base em nossa análise, podemos prever teoricamente a composição desses dois planetas”, diz Sossi.
O próprio autor reconhece que o tema segue em aberto. “Até lá, porém, Dan e eu teremos muitos debates acalorados sobre a composição material da Terra e de seus planetas vizinhos, porque o debate científico sobre os blocos de construção da Terra está longe de terminar, apesar dos novos resultados”, afirma Sossi.
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