3I/ATLAS veio de um sistema muito mais frio que o nosso
Medições feitas pelo ALMA indicam que o cometa 3I/ATLAS se formou em uma região da Via Láctea muito mais fria que o Sistema Solar.

Cientistas identificaram uma pista química rara no cometa interestelar 3I/ATLAS, o terceiro objeto vindo de fora do Sistema Solar já descoberto em passagem por nossa vizinhança. As medições feitas pelo observatório ALMA, no Chile, indicam que ele nasceu em uma região muito mais fria da Via Láctea.
A descoberta chama atenção porque transforma o cometa em uma espécie de cápsula do tempo cósmica. Sua água guarda sinais do ambiente onde ele se formou, antes de cruzar o espaço interestelar e chegar perto do Sol.
Um visitante de fora do Sistema Solar
O 3I/ATLAS não pertence à família de cometas que nasceram ao redor do Sol. Ele veio de outra região da galáxia e passou pelo Sistema Solar carregando marcas de sua origem.
Cometas costumam receber o apelido de “bolas de neve sujas” porque misturam gelo, poeira e compostos químicos. Essa composição preserva informações antigas, quase como um arquivo congelado.
No caso dos cometas do Sistema Solar, esse registro remonta a cerca de 4,6 bilhões de anos. Foi nessa época que planetas também se formavam ao redor do jovem Sol.
A pista estava na água “semipesada”
Pela primeira vez, a equipe fez a medição de água deuterada no cometa interestelar, também chamada de água semipesada.
Esse tipo de água parece quase igual à comum. A diferença está em um dos átomos de hidrogênio, substituído por deutério, um isótopo mais pesado.
Ou seja, é como se uma molécula de água carregasse uma pequena “assinatura química” extra. Essa assinatura muda conforme as condições do ambiente onde o gelo se formou.

Trinta vezes mais que o normal
As medições revelaram que o 3I/ATLAS tem cerca de 30 vezes mais água deuterada do que cometas formados no Sistema Solar.
A comparação fica ainda mais impressionante quando se olha para a Terra. A proporção é 40 vezes maior que a encontrada nos oceanos do nosso planeta.
Essa diferença sugere que o cometa se formou em um ambiente extremamente frio e quimicamente distinto. Não foi apenas outro berço planetário, mas um lugar com condições muito diferentes das nossas.
Um frio abaixo de 30 Kelvin
De acordo com Luis E. Salazar Manzano, da Universidade de Michigan, os processos químicos que aumentam a água deuterada dependem muito da temperatura.
Eles costumam exigir ambientes abaixo de 30 Kelvin, cerca de -207 °C. Isso indica que o 3I/ATLAS pode ter se formado em uma região mais gelada que o ambiente onde nasceu o Sistema Solar.
Manzano afirmou que as novas observações mostram como a formação do nosso sistema pode ter sido bem diferente da evolução de sistemas planetários em outras partes da galáxia.
O ALMA enxergou onde telescópios ópticos não conseguem
O estudo usou o Atacama Large Millimeter/Submillimeter Array (o ALMA), conjunto de 66 antenas de rádio instalado no Chile.
A observação ocorreu quando o 3I/ATLAS chegou ao ponto mais próximo do Sol. Isso só foi possível porque as antenas do ALMA conseguem apontar nessa direção.
Telescópios ópticos enfrentam dificuldade nesse tipo de observação por causa do brilho intenso da luz solar.
Fósseis químicos de outro lugar
“Cada cometa interestelar traz um pouco de sua história, seus fósseis, de outro lugar”, afirmou Teresa Paneque-Carreño, da Universidade de Michigan, nos EUA, ao Space.
Ainda não se sabe exatamente onde o 3I/ATLAS nasceu. Mas sua água mostra que ele veio de um ambiente muito mais frio que o nosso quintal planetário.
A pesquisa foi publicada na revista Nature Astronomy.
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