Fonte misteriosa da Via Láctea emite rádio há mais de 20 anos
Fonte de rádio brilha há duas décadas sem nunca emitir raios X, e sua origem ainda é um mistério.

A fonte foi batizada de VT J1906+0849 é o transiente mais brilhante já registrado pelo levantamento Very Large Array Sky Survey (VLASS), feito pelos pesquisadores do Observatório Very Large Array, nos EUA. O padrão não se encaixa em nenhuma classe conhecida de objeto cósmico.
Sua primeira detecção ocorreu em 27 de outubro de 2017, mas dados de arquivo do levantamento MAGPIS mostram um registro anterior em 2005, quando a fonte emitia cerca de 35 milijanskys em 4,86 gigahertz.
A equipe, liderada por Jessie M. Miller, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos EUA, calcula que o brilho da fonte aumentou pelo menos seis vezes ao longo de 21 anos, com um pico acima de 200 milijanskys por volta de 2014.
O sinal perdeu intensidade depois disso e voltou a se intensificar no fim de 2025. A distância estimada da fonte varia de 15.000 a 32.000 parsecs, o equivalente a algo entre 49.000 e 104.000 anos-luz.

Da esquerda para a direita: VT J1906+0849 durante a época de referência (NVSS), primeira detecção de arquivo (MAGPIS-6cm) e época de descoberta (VLASS Época 1). (Crédito: ArXiv)
Um comportamento fora do padrão
A maioria dos transientes de rádio segue um roteiro simples, em que brilha rápido e depois desaparece aos poucos. VT J1906+0849 rompe essa regra.
Observações do Very Long Baseline Array feitas em 2010, 2022 e 2025 mostram que a região emissora continua extremamente compacta, mesmo com linhas espectrais sugerindo gás se movendo a milhares de quilômetros por segundo. Uma observação do telescópio espacial Swift não encontrou nenhum contraponto em raios X.
Fontes conhecidas, como estrelas eruptivas, binárias magneticamente ativas, novas e variáveis cataclísmicas, são fracas demais para explicar o brilho observado.
O que descarta a hipótese de um pulsar jovem
A temperatura de brilho da fonte varia de 100 milhões a 10 bilhões de kelvins, valor alto demais para ter origem térmica, como a formação estelar. Esse padrão aponta para um processo não térmico, provavelmente radiação síncrotron, produzida quando elétrons relativísticos giram em campos magnéticos intensos.
Um pulsar jovem poderia, em tese, fornecer energia suficiente para esse tipo de emissão. Só que pulsares perdem energia rotacional de forma gradual, ao longo de séculos, enquanto VT J1906+0849 mudou de comportamento em poucos anos. Por isso, os pesquisadores apontam para explicação de um acréscimo contínuo de matéria sobre um objeto compacto, como um buraco negro ou uma estrela de nêutrons.
Um vento pode esconder os raios X
Um buraco negro ou uma estrela de nêutrons poderia lançar continuamente um jato de partículas relativísticas e campos magnéticos. Se esse jato interagir com um vento denso vindo de um disco de acréscimo, o vento bloquearia parte do plasma emissor de rádio, o que explicaria por que a fonte permanece compacta em vez de se expandir.
Linhas largas de emissão no infravermelho próximo reforçam essa hipótese. Uma parte do sinal aparece deslocada para o azul, indicando movimento em direção à Terra, compatível com um vento de disco rápido e assimétrico. A ausência de raios X, nesse cenário, ocorreria porque a fonte central fica escondida atrás de um vento interno mais denso. Um arranjo parecido, embora mais extremo, já foi observado no microquasar SS 433.
O que ainda falta confirmar
Por enquanto, a natureza de VT J1906+0849 segue incerta. Espectroscopia de infravermelho de alta resolução poderia confirmar a existência do vento de disco, enquanto observações profundas em raios X duros ajudariam a revelar um possível motor central hoje encoberto.
Se confirmada, a fonte pode se tornar a primeira representante de uma nova população de objetos compactos da Via Láctea, que são fracos em raios X, mas extraordinariamente brilhantes em rádio.
O estudo está disponível no ArXiv.
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