Inferno de Dante pode esconder impacto de asteroide

Professor de geomitologia vê no Inferno uma descrição surpreendente dos efeitos físicos de uma grande massa atingindo a Terra.

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Ilustração da entrada para a parte baixa do Inferno, no interior as muralhas da Cidade de Dite, feita pelo artista Johannes Stradanus. I
Ilustração da entrada para a parte baixa do Inferno, no interior as muralhas da Cidade de Dite, feita pelo artista Johannes Stradanus. Imagem: Wikimedia Commons

Um professor de geomitologia defende que o Inferno, poema épico de Dante Alighieri escrito no século XIV, pode esconder algo inesperado: uma descrição parecida com o impacto de um asteroide ou cometa. A ideia chama atenção porque o texto surgiu séculos antes de a ciência reconhecer meteoritos como objetos vindos do espaço.

Um clássico medieval com leitura cósmica

A interpretação parte de Timothy Burberry, professor de Inglês na Universidade Marshall, nos EUA. Ele trabalha com geomitologia, área que busca em mitos, lendas e narrativas antigas possíveis ecos de eventos geológicos reais.

No Inferno, primeira parte da Divina Comédia, Dante viaja pelo submundo guiado pelo poeta romano Virgílio. A jornada passa por nove círculos concêntricos, onde almas recebem punições conforme seus pecados.

No centro desse mundo subterrâneo está Lúcifer, descrito como uma criatura monstruosa, com asas e três cabeças.

A queda de Lúcifer como impacto gigante

A parte mais importante para Burberry aparece perto do fim da obra. Dante e Virgílio escapam do Inferno ao descer pelo corpo de Satã e atravessar o centro de gravidade da Terra.

Virgílio explica que, muito tempo antes, o hemisfério sul teria sido coberto por terra. Quando Deus expulsou Lúcifer do céu, ele caiu sobre o planeta, atravessou a superfície e continuou até o centro da Terra.

Essa queda teria criado o Inferno como uma cratera circular, profunda e em terraços. O material deslocado teria subido e formado a Montanha do Purgatório.

Pintura Sandro Botticelli que retrata o "Gráfico do Inferno".
Pintura Sandro Botticelli que retrata o “Gráfico do Inferno”. Imagem: Wikimedia Commons

Por que isso intriga pesquisadores

Para Burberry, a imagem lembra a lógica de um impacto cósmico. Um corpo enorme atinge a Terra em alta velocidade, desloca rochas, reorganiza o terreno e deixa uma estrutura em anéis.

Hoje, o hemisfério sul tem grande domínio oceânico, com 81% de sua área coberta por água. Na época de Dante, porém, essa região ainda tinha exploração limitada e muitos imaginavam um sul quase todo oceânico.

A comparação não significa que Dante descreveu uma ciência moderna com intenção técnica. Mesmo assim, a visão impressiona porque, no século XIV, os céus ainda apareciam como fixos e eternos para a cultura dominante.

Uma ideia antes de seu tempo

A própria noção de pedras caindo do espaço só ganhou reconhecimento científico na primeira metade do século XIX. Antes disso, meteoro e meteorito não tinham o mesmo sentido atual.

De acordo com o Space, Burberry afirma que Dante, embora não fosse cientista, pensou nos efeitos físicos de uma grande massa atingindo a Terra em alta velocidade. O pesquisador apresentou essa leitura em um pôster na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências, em Viena, na última semana.

A teoria não prova que Dante imaginou um asteroide real. Mas mostra como obras antigas podem guardar intuições poderosas sobre desastres naturais, muito antes de a ciência nomear esses fenômenos.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.

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