Vulcão revela vestígios do oceano de magma da Terra jovem
Lavas do vulcão Fani Maoré indicam que partes muito antigas do manto terrestre ainda resistem à mistura geológica.

Um vulcão submarino jovem, perto de Madagascar, revelou sinais químicos ligados ao antigo oceano de magma que cobriu a Terra primitiva. O achado indica que parte do manto preserva material dos primeiros 100 milhões de anos do planeta.
A descoberta é importante porque esse registro parecia quase perdido. O manto terrestre se movimenta há mais de 4 bilhões de anos, em um processo capaz de misturar e apagar pistas químicas muito antigas.
Um vestígio da Terra antes da crosta
A Terra passou por uma fase extrema no éon Hadeano, o primeiro e mais antigo período da história da Terra, ocorrendo entre 4,6 bilhões e 4 bilhões de anos atrás. Um corpo do tamanho de Marte atingiu o planeta jovem e lançou detritos que, mais tarde, formaram a Lua.
O impacto aqueceu a Terra a ponto de criar um oceano global de rocha derretida. Esse magma esfriou ao longo de alguns milhões de anos, cristalizou e permitiu a formação da crosta inicial.
A grande dúvida era se algum vestígio dessa cristalização ainda sobrevivia no manto. A nova análise indica que sim.
“Agora temos prova de que materiais de 4,5 bilhões de anos, do início da história da Terra, ainda existem em quantidade suficiente para aparecer em um vulcão”, afirmou Catherine Chauvel à NewScientist.
O vulcão nasceu após uma crise sísmica
A pista veio de uma região entre Madagascar e Moçambique. Em maio de 2018, uma sequência incomum de terremotos perto da ilha francesa de Mayotte chamou a atenção dos cientistas.
As investigações revelaram um novo vulcão submarino, cerca de 50 quilômetros a leste da ilha. Ele recebeu o nome de Fani Maoré.
As erupções dos três anos seguintes drenaram tanto magma do subsolo de Mayotte que a ilha afundou cerca de 20 centímetros.
A equipe comparou rochas vulcânicas de Fani Maoré com amostras do sistema vulcânico mais antigo de Mayotte. O objetivo era identificar diferenças pequenas, escondidas na assinatura química das lavas.
A pista apareceu nos isótopos
Os pesquisadores usaram uma técnica de alta precisão para medir variações em isótopos de neodímio. Isótopos são versões do mesmo elemento químico com massas diferentes.
Essas diferenças funcionam como um registro da origem do material. No caso do neodímio, elas ajudam a reconstruir como o oceano de magma da Terra cristalizou.
A lava de Fani Maoré apresentou razão maior entre neodímio 142 e neodímio 144 do que a lava de Mayotte. Esse sinal aponta para uma porção antiga do manto que escapou da mistura completa.
Essa porção também parece rica em bridgmanita. O mineral deve ter sido um dos primeiros a cristalizar quando o oceano de magma começou a esfriar.
O manto pode ser menos misturado do que se pensava
O resultado questiona a ideia de um manto totalmente homogeneizado ao longo da história terrestre. Ele sugere que bolsões muito antigos ainda permanecem preservados em profundidade.
Claudine Israel afirmou que a análise ajuda a mostrar como a cristalização inicial criou diferenças químicas desde o começo do planeta.
Tim Johnson avaliou o achado como um avanço relevante. Bernard Bourdon comparou a raridade do registro a encontrar uma amostra profunda da Terra chegando à superfície.
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