Terra está atravessando restos de uma antiga supernova

Traços de ferro-60 em gelo de até 80 mil anos indicam que o Sistema Solar atravessa uma nuvem marcada por uma supernova antiga.

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Foto da Terra captada de órbita. Imagem: NASA
Foto da Terra captada de órbita. Imagem: NASA

A Terra está recolhendo, em silêncio, partículas deixadas por uma antiga explosão estelar. Cientistas encontraram traços de ferro-60 em gelo antártico formado entre 40 mil e 80 mil anos atrás, conforme estudo publicado na Physical Review Letters.

A descoberta liga o ambiente ao redor do Sistema Solar a uma supernova antiga. Ou seja, nosso planeta pode atravessar agora uma espécie de neblina cósmica com restos de uma estrela que morreu violentamente.

Um metal raro preso no gelo

O ferro-60 não aparece em grandes quantidades na Terra. Ele se forma no interior de estrelas massivas e ganha o espaço quando elas explodem como supernovas.

Por isso, encontrar esse isótopo no gelo antártico funciona como achar uma impressão digital cósmica. O gelo guarda partículas que caíram na Terra ao longo de milhares de anos, como um arquivo natural do céu.

A equipe internacional liderada pelo Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf analisou amostras antigas da Antártida. O material veio de um núcleo de gelo associado ao projeto europeu EPICA (sigla em inglês para Projeto Europeu de Perfuração de Gelo na Antártida), com apoio do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha.

A nuvem que envolve o Sistema Solar

Caminho do sistema solar através da Nuvem Interestelar Local. O perfil da nuvem é preservado como uma impressão digital interestelar no gelo da Antártida. Imagem: B. Schröder/HZDR/ NASA/Goddard/Adler/U.Chicago/Wesleyan
Caminho do sistema solar através da Nuvem Interestelar Local. O perfil da nuvem é preservado como uma impressão digital interestelar no gelo da Antártida. Imagem: B. Schröder/HZDR/ NASA/Goddard/Adler/U.Chicago/Wesleyan

Os cientistas investigavam uma hipótese intrigante. O Sistema Solar atravessa a Nuvem Interestelar Local, uma grande região de gás e poeira entre as estrelas.

A ideia era que essa nuvem poderia guardar ferro-60. Assim, conforme o Sol e os planetas avançam por ela, a Terra recolheria parte desse material.

“Nossa ideia era que a Nuvem Interestelar Local contém ferro-60 e pode armazená-lo por longos períodos”, explicou Dominik Koll, do HZDR ao ScienceDaily. “À medida que o Sistema Solar se move pela nuvem, a Terra poderia coletar esse material.”

Menos ferro no passado, mais pistas no presente

Ao comparar o gelo antigo com medições anteriores em neve e sedimentos marinhos, a equipe viu uma diferença importante. Entre 40 mil e 80 mil anos atrás, menos ferro-60 chegou à Terra do que hoje.

Para Koll, isso sugere duas possibilidades. O Sistema Solar poderia estar antes em uma região com menos ferro-60. Outra hipótese envolve grandes variações de densidade dentro da própria nuvem.

O sinal mudou bastante em apenas dezenas de milhares de anos. Para escalas cósmicas, isso representa uma mudança rápida.

Esse padrão ajudou a afastar explicações concorrentes. Uma delas dizia que o ferro-60 viria de supernovas antigas, com um sinal enfraquecendo lentamente por milhões de anos.

Uma busca por poucos átomos

A parte técnica exigiu paciência. Os pesquisadores transportaram cerca de 300 quilos de gelo antártico de Bremerhaven para Dresden, cidades alemãs distantes em cerca de 530 km.

Depois do processamento químico, restaram apenas algumas centenas de miligramas de poeira. A equipe separou o ferro-60 e verificou o procedimento com berílio-10 e alumínio-26.

As medições finais ocorreram na Instalação de Acelerador de Íons Pesados da Universidade Nacional da Austrália. O equipamento separou átomos por massa até encontrar poucos átomos de ferro-60 em uma amostra com 10 trilhões de átomos.

“É como procurar uma agulha em 50 mil estádios de futebol cheios de feno até o teto. A máquina encontra a agulha em uma hora”, disse Annabel Rolofs, da Universidade de Bonn, na Alemanha.

O próximo passo no gelo mais antigo

Os pesquisadores agora querem analisar núcleos de gelo ainda mais antigos. O objetivo é estudar um período anterior à entrada do Sistema Solar na Nuvem Interestelar Local.

A iniciativa EPICA, com participação do Instituto Alfred Wegener, busca recuperar amostras que avancem ainda mais no passado da Terra. Se der certo, o gelo poderá contar não só a história do clima, mas também a trajetória do nosso bairro galáctico.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.

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