Sinais de ETs podem estar chegando distorcidos à Terra

Estudo sugere que estrelas podem "borrar" sinais de rádio alienígenas

Radiotelescópio do Very Large Array, nos EUA
Radiotelescópio do Very Large Array, nos EUA. Imagem: Unsplash

Um novo estudo sugere que a busca por civilizações extraterrestres talvez esteja enfrentando um obstáculo maior do que parecia: o próprio ambiente espacial ao redor das estrelas. Segundo os autores, sinais de rádio enviados por uma civilização inteligente podem ser distorcidos e espalhados pelo vento estelar antes mesmo de deixarem seu sistema, chegando à Terra fracos demais ou com formato diferente do que os telescópios costumam procurar.

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A hipótese foi apresentada em um artigo publicado no The Astrophysical Journal por Vishal Gajjar e Grayce Brown, do Instituto SETI. A implicação é direta: alguns dos sinais que os cientistas esperavam encontrar talvez simplesmente não existam da forma como imaginávamos.

Isso não significa que não haja transmissões no Cosmos. Significa, antes, que elas podem estar sendo “borradas” no caminho.

O problema pode começar na estrela da própria civilização

Durante décadas, uma das ideias básicas do projeto SETI (a busca por inteligência extraterrestre) foi supor que uma civilização que quisesse se comunicar enviaria um sinal intencional, estreito e concentrado em uma faixa muito pequena de frequência.

No caso humano, os sinais intencionais costumam ocupar algo em torno de 1 Hz de largura. Essa escolha faz sentido: quanto mais concentrada a energia estiver, maior tende a ser a força detectada por quem recebe a transmissão. Espalhar a mesma energia por uma faixa mais larga enfraquece o sinal.

Com base nisso, pesquisadores passaram anos procurando exatamente esse tipo de emissão. Foi uma das razões para iniciativas como o SETI@Home, que distribuía a análise de sinais entre computadores domésticos, examinando o céu em fatias estreitas de frequência.

Mas o novo estudo põe esse raciocínio sob pressão. Os autores argumentam que manter um sinal tão estreito por distâncias interestelares talvez não seja apenas difícil (talvez seja improvável).

Um sinal de 1 Hz pode virar outro completamente diferente

A explicação está no plasma e na turbulência gerados pela estrela da civilização emissora. De acordo com o estudo, esse “clima espacial” pode alargar um sinal originalmente concentrado em 1 Hz para 10 Hz ou até 100 Hz, ainda nas etapas iniciais da viagem, enquanto ele cruza a vizinhança da estrela.

Na prática, é como se uma mensagem enviada com letra fina e nítida fosse borrada antes de sair da impressora. Ela ainda existe, mas perdeu a forma esperada.

Esse alargamento tem duas consequências importantes. A primeira é energética: quando o sinal se espalha por uma faixa mais ampla, sua potência aparente cai. De acordo com o UniverseToday, uma transmissão expandida de 1 Hz para 10 Hz conserva apenas cerca de 6% de sua potência original.

A segunda é metodológica: um sinal assim pode passar despercebido pelos filtros tradicionais do SETI, justamente porque não se encaixa mais no padrão estreito para o qual esses sistemas foram treinados.

O que os cientistas fizeram para testar a ideia

Para sustentar a hipótese, os autores olharam para algo mais próximo, os sinais emitidos dentro do nosso próprio Sistema Solar. Em vez de partir apenas de simulações abstratas, eles analisaram empiricamente como transmissões de espaçonaves interplanetárias são distorcidas ao atravessar o meio interplanetário do Sol.

O conjunto de dados incluiu missões que vão de Mariner IV a Rosetta. Com isso, os pesquisadores calcularam de que forma o plasma da nossa estrela interfere em sinais de rádio.

Depois, usaram esses resultados para extrapolar cenários em outros sistemas estelares, considerando estrelas com características diferentes. É um caminho importante porque troca uma hipótese puramente teórica por uma ponte construída a partir de medições reais.

Quanto mais perto da estrela, maior o borrão

Um dos fatores centrais identificados pelo estudo foi a distância entre a fonte do sinal e sua estrela. Quanto mais perto a origem do sinal estiver da estrela hospedeira, maior tende a ser o espalhamento.

Esse ponto chama atenção por causa das anãs vermelhas, estrelas pequenas e frias que representam cerca de 75% das estrelas da Via Láctea. Elas também concentram a maior parte dos candidatos a exoplanetas potencialmente habitáveis conhecidos até agora.

Só que há um detalhe decisivo: a zona habitável desses sistemas fica muito mais próxima da estrela do que no caso do Sol. Isso significa que um planeta capaz de abrigar água líquida (e, em tese, vida) estaria também mergulhado muito mais perto da região em que o clima espacial pode bagunçar sinais de rádio.

Em outras palavras, alguns dos mundos mais interessantes para a busca de vida inteligente podem estar justamente nos sistemas onde é mais difícil fazer a mensagem escapar intacta.

Anãs vermelhas complicam ainda mais a busca

O estudo destaca outro problema: anãs vermelhas são descritas como estrelas notoriamente violentas. Eventos intensos de clima espacial ocorreriam nelas com muito mais frequência do que no nosso Sol.

Isso reforça o efeito de borrão nas transmissões. Se uma civilização tecnológica viver em um planeta ao redor de uma dessas estrelas, ela pode até estar emitindo sinais de rádio, mas eles teriam de atravessar um ambiente mais turbulento logo na largada.

Para o observador na Terra, isso muda bastante a lógica da busca. Em vez de imaginar que sinais artificiais viajam como linhas finas e limpas pelo espaço, talvez seja mais realista procurar por marcas mais espalhadas, com menos definição e mais ruído.

O que isso muda para o SETI

O ponto mais importante do trabalho talvez esteja menos na física do sinal e mais na consequência prática. Se os autores estiverem certos, uma parte das estratégias clássicas do SETI pode estar filtrando demais.

Historicamente, o campo deu atenção especial a frequências entre 1,4 GHz e 1,6 GHz, considerada uma região relativamente silenciosa em termos de ruído de fundo galáctico. Mas o problema não está apenas em onde procurar. Está também em como procurar.

Analisar fatias de 1 Hz dentro de uma largura de banda de 200 MHz já era, por si só, um trabalho pesado. Fazer isso em dados vindos de praticamente todo o céu torna a tarefa ainda mais exigente. Se os sinais relevantes forem mais largos do que o esperado, a dificuldade aumenta de novo, porque será necessário abrir o filtro e processar muito mais possibilidades.

Mais dados e menos rigidez

A recomendação apontada na pesquisa é simples, embora complicada na prática: coletar mais dados e filtrar menos. Em vez de descartar sinais que não se encaixam no molde clássico, observatórios futuros poderiam usar técnicas de processamento para reconhecer transmissões “manchadas” pela travessia do ambiente estelar.

Entre as abordagens citadas estão filtros e canalização em múltiplas resoluções. São estratégias que ajudariam a detectar sinais espalhados por uma faixa mais larga. O vindouro Square Kilometer Array poderia aplicar esse tipo de abordagem com mais eficiência. Ainda assim, isso exigiria muito mais poder computacional.

A ironia é evidente: a busca por alienígenas talvez não precise apenas de telescópios melhores, mas também de um salto na capacidade de processamento. O cenário até reacende uma memória curiosa para quem viveu o auge do SETI@Home… a possibilidade de ver, de novo, gráficos coloridos e análises distribuídas entre computadores domésticos ou clusters de inteligência artificial.

A mensagem pode estar aí, mas em outro formato

O estudo não afirma que civilizações extraterrestres existem, nem diz que já detectamos sinais delas. O que ele faz é algo mais sutil e, ao mesmo tempo, muito relevante: questiona se estamos procurando do jeito certo.

Essa é a força da proposta. Em vez de apenas perguntar “onde estão os alienígenas?”, o trabalho acrescenta uma camada nova: “e se o universo estiver distorcendo a resposta antes que ela chegue?”.

Para um campo como o SETI, é uma mudança de perspectiva. Afinal, talvez o silêncio do cosmos não seja silêncio de fato. Talvez seja uma conversa que chega até nós desfocada demais para ser reconhecida.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.