Cientistas encontram uma gigantesca bacia escondida na Lua

Sonda indiana Chandrayaan-1 revela uma bacia de impacto que pode ser mais antiga que a maior cratera já confirmada na Lua.

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Vista do Mar Austral, na Lua, captado pelos astronautas da Apollo 15 (Crédito: NASA)
Vista do Mar Austral, na Lua, captado pelos astronautas da Apollo 15 (Crédito: NASA)

Uma equipe do Physical Research Laboratory (PRL), na Índia, identificou uma bacia de impacto oculta na Lua. Dados de mineralogia coletados pela sonda Chandrayaan-1 apontam para uma cratera possivelmente mais antiga que a maior bacia já confirmada no satélite.

A descoberta foi publicada na revista The Planetary Science Journal, em artigo assinado por Neha Panwar, Tvisha Kapadia e Neeraj Srivastava, todos do PRL, em Ahmedabad.

A região batizada de bacia “Australe” fica no hemisfério sudeste da Lua, no Mar Austral, marcada por 248 pequenas poças de basalto organizadas em um padrão circular. O instrumento usado no levantamento foi o Moon Mineralogy Mapper (M3), um espectrômetro de imageamento a bordo da Chandrayaan-1 que opera entre 405 e 3.000 nanômetros e mapeia a composição mineral da superfície lunar com resolução de 140 a 280 metros por pixel.

Como os cientistas rastrearam uma cratera que ninguém via

A bacia Australe nunca havia sido confirmada porque não apresenta o formato de anel nem a assinatura de gravidade que costumam identificar impactos desse tamanho. A equipe do PRL contornou esse limite ao analisar a mineralogia da região em vez da topografia.

Os dados do M3 mostraram um anel de ortopiroxênio, mineral associado a rochas da crosta profunda ou do manto, cercando o Mar Austral. Esse padrão coincide com o contorno das poças de basalto e é compatível com os limites já mapeados da vizinha bacia Australe Norte, identificada anteriormente por dados de gravidade da missão Gravity Recovery and Interior Laboratory (GRAIL), da NASA. A conclusão da equipe é que a região guarda evidências de dois impactos distintos e superpostos.

Ao The Indian Express, Neha Panwar, cientista planetária e autora principal do estudo, descreveu que “a vulcanização dentro da bacia Australe tem uma mineralogia muito peculiar”. “Diferente da maioria dos basaltos da Lua, que são ricos em cálcio, esses basaltos são relativamente mais pobres em cálcio e mais ricos em magnésio”, afirmou.

Estudo geológico da região de Australe. (a) Limbo oriental da Lua, com a linha tracejada preta marcando a longitude de 90° E. Os polígonos laranja delimitam as fronteiras dos mares lunares, e os polígonos preenchidos correspondem aos basaltos da região de Australe abordados neste estudo. (b) Mosaico da área de estudo, com os limites do Mare Australe marcados em verde, e as regiões sombreadas correspondem aos basaltos com idades de formação já estabelecidas (Crédito: The Planetary Science Journal)
Estudo geológico da região de Australe. (a) Limbo oriental da Lua, com a linha tracejada preta marcando a longitude de 90° E. Os polígonos laranja delimitam as fronteiras dos mares lunares, e os polígonos preenchidos correspondem aos basaltos da região de Australe abordados neste estudo. (b) Mosaico da área de estudo, com os limites do Mar Austral, e as regiões sombreadas correspondem aos basaltos com idades de formação já estabelecidas (Crédito: The Planetary Science Journal)

Uma bacia possivelmente mais antiga que a maior conhecida da Lua

A maior e mais antiga bacia de impacto confirmada na Lua é a South Pole-Aitken, formada há cerca de 4,2 a 4,3 bilhões de anos. Segundo os pesquisadores do PRL, a bacia Australe pode ser da mesma época ou até anterior a ela.

O indício principal é a ausência de anortosito puro (PAN, na sigla em inglês) ao redor da bacia Australe, mineral que costuma marcar o contorno de bacias lunares antigas. A equipe interpreta essa ausência como sinal de que a bacia Australe se formou antes da cristalização completa do oceano de magma lunar, fase inicial da história geológica da Lua. Se confirmada, essa cronologia colocaria a bacia Australe entre as mais antigas já identificadas no satélite.

O que já foi provado e o que ainda depende de confirmação

A descoberta se apoia inteiramente em evidência mineralógica, obtida por sensoriamento remoto. Não há, até o momento, confirmação por imagem direta, dado de gravidade ou levantamento topográfico, os métodos tradicionais usados para validar bacias de impacto na Lua.

Os próprios autores do estudo afirmam que uma modelagem geoquímica e geodinâmica detalhada ainda é necessária para entender o mecanismo que produziu a mineralogia única da região. Ou seja, a existência da bacia Australe está sustentada por um conjunto consistente de evidências indiretas, mas a confirmação definitiva depende de estudos futuros que cruzem esses dados com outras técnicas de investigação lunar.

Como isso pode ajudar as próximas missões à Lua

O achado tem utilidade prática para missões de pouso e coleta de amostras. O local de pouso da Chandrayaan-3, batizado de ponto Shiv Shakti, apresentou concentração elevada de magnésio, o que os pesquisadores associam a material originado na bacia South Pole-Aitken e transportado por cerca de 350 quilômetros. A nova cartografia mineral da região Australe oferece um contexto geológico semelhante para interpretar dados de futuras missões.

Panwar afirmou que o estudo “nos dá um quadro para interpretar os dados das missões de aterrissagem em um contexto geológico mais amplo, ao estudar as regiões que podem ter contribuído com material para esses locais de pouso.” Segundo ela, sítios como esse podem se tornar alvos de futuras missões de retorno de amostras, como a Chandrayaan-4, um projeto indiano ainda em fase de proposta, e da também proposta base lunar da NASA.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe do Futuro Astrônomo. Astrônomo amador há mais de 30 anos, cobre descobertas científicas, missões espaciais e observação do céu desde 2002, quando lançou um dos primeiros blogs de astronomia do Brasil. Tem formação em jornalismo e está se especializando em planetologia. Também é fã de Star Trek.

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