Japoneses querem plantar arroz na Lua

Tecnologia de plasma cria nitrato a partir do ar e ajuda mudas de arroz a crescerem em solo lunar simulado.

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Foto da Lua e da Terra captada pela sonda japonesa Kayuga em 2008. Imagem: JAXA
Foto da Lua e da Terra captada pela sonda japonesa Kayuga em 2008. Imagem: JAXA

Pesquisadores da Universidade Tohoku, no Japão, e da JAXA (Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial) criaram uma tecnologia de plasma capaz de produzir fertilizante de nitrogênio a partir do ar.

O método, publicado na npj Microgravity, ajudou mudas de arroz a crescerem em solo lunar simulado e pode apoiar futuras fazendas na Lua.

Por que plantar na Lua ainda é difícil

Missões longas precisam de comida produzida perto dos astronautas. Levar todo o alimento da Terra aumenta custo, massa e dependência logística.

O solo lunar cria um obstáculo, uma vez que ele não contém material orgânico. Fontes essenciais de nitrogênio para plantas, como amônia e nitrato, quase não existem ali.

Sem nitrogênio acessível, o arroz não consegue manter processos básicos de crescimento. A planta precisa desse elemento para formar estruturas vitais e sustentar seu desenvolvimento inicial.

Como o ar vira fertilizante

A equipe desenvolveu um dispositivo portátil de plasma que sintetiza pentóxido de dinitrogênio (ou N₂O₅) a partir do ar atmosférico.

O equipamento consome menos de 100 watts. Esse detalhe importa para bases lunares, onde energia, manutenção e espaço físico contam muito.

“O dispositivo portátil de plasma sintetiza seletivamente gás N₂O₅ a partir do ar atmosférico, consumindo menos de 100 W no processo”, afirmou Toshiro Kaneko, professor da Universidade Tohoku, ao Phys.

O gás se dissolve rapidamente na água e gera nitrato, representado por NO₃⁻. A eficiência de dissolução chega a quase 100%, segundo os pesquisadores.

Crescimento de arroz no simulador de regolito lunar com água dissolvida N2O5. Em comparação com o controle somente de água, as plantas tratadas com a solução N2O5 apresentaram um crescimento acentuadamente aprimorado três meses após a semeadura. Além disso, a direção foi observada quatro meses após a semeadura, indicando que a solução de N2O5 é eficaz como fertilizante nitrogenado. Crédito: Toshiro Kaneko
Crescimento de arroz no simulador de regolito lunar com água dissolvida N2O5. Em comparação com o controle somente de água, as plantas tratadas com a solução N2O5 apresentaram um crescimento acentuadamente aprimorado três meses após a semeadura. Além disso, a direção foi observada quatro meses após a semeadura, indicando que a solução de N2O5 é eficaz como fertilizante nitrogenado. Imagem: Toshiro Kaneko

O solo lunar simulado ficou menos hostil

A equipe aplicou água com N₂O₅ dissolvido em um simulante de regolito lunar. Regolito é o material solto que cobre a superfície da Lua.

O tratamento reduziu o pH de 9,09 para 6,76. Essa mudança tirou o ambiente de uma condição muito alcalina e o aproximou de uma faixa melhor para o cultivo.

A alteração também liberou nutrientes minerais presos no simulante. Cálcio, magnésio e potássio ficaram mais disponíveis para absorção pelas plantas.

Ao mesmo tempo, o tratamento reduziu a liberação de íons tóxicos de alumínio, ou Al³⁺. Esses íons costumam prejudicar o desenvolvimento das raízes.

O arroz cresceu melhor

As mudas de arroz cresceram melhor com a água enriquecida por N₂O₅ do que com água pura. O ganho veio da combinação entre nitrato, pH adequado e minerais mais acessíveis.

O gás também trouxe efeitos nas folhas. Quando aplicado diretamente, ele ativou rotas hormonais ligadas à resistência e à imunidade das plantas.

A exposição ao gás ainda reduziu o alongamento do caule e dos entrenós. Esse controle ajuda a evitar plantas esticadas demais, um ponto relevante em ambientes de baixa gravidade.

Uso pode ir além da Lua

Kaneko afirma que o processo funciona com eletricidade e baixa potência. Isso separa a fixação de nitrogênio do uso de combustíveis fósseis.

A tecnologia ainda está ligada a experimentos com simulante lunar. Mesmo assim, o estudo mostra um caminho técnico promissor.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.

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