Cometa vindo de outra estrela guarda um segredo sobre sua origem gelada

Observações com telescópio no Reino Unido mostram que o visitante interestelar 3I/ATLAS se formou longe de sua estrela, em temperaturas extremamente baixas.

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O Cometa 3I/ATLAS fotografado pelo Observatório Gemini, no Hawai, em dezembro de 2025 (Crédito: International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/B. Bolin)
O Cometa 3I/ATLAS fotografado pelo Observatório Gemini, no Hawai, em dezembro de 2025 (Crédito: International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/B. Bolin)

Uma equipe internacional de astrônomos identificou cinco tipos de partículas carregadas na cauda do cometa interestelar 3I/ATLAS. A descoberta indica que o objeto se formou a temperaturas abaixo de -240°C, longe de qualquer estrela.

O estudo foi conduzido por Lea Ferellec, pesquisadora da Northumbria University, no Reino Unido, em parceria com colegas do Instituto de Astronomia da University of Edinburgh, na Escócia. A equipe usou o espectrógrafo WEAVE, instalado no William Herschel Telescope, nas Ilhas Canárias, na Espanha, para observar 3I/ATLAS em 30 de novembro e 2 de dezembro de 2025, depois da passagem do cometa pelo periélio, ocorrida em 29 de outubro de 2025.

Nessas observações, os pesquisadores detectaram ao mesmo tempo cinco íons na cauda do cometa: nitrogênio molecular ionizado, monóxido de carbono ionizado, dióxido de carbono ionizado, água ionizada e o íon CH+.

A proporção entre nitrogênio e monóxido de carbono mostrou um valor de pelo menos 2,3%, considerado alto para esse tipo de objeto. O trabalho foi publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

O que a proporção de nitrogênio revela

A quantidade de nitrogênio molecular em relação ao monóxido de carbono ajuda a estimar a temperatura em que um cometa se formou. Quanto mais nitrogênio fica preso no gelo, mais fria era a região de origem do objeto.

No caso de 3I/ATLAS, a proporção medida está entre as mais altas já registradas em cometas. Segundo a Northumbria University, o resultado indica que o objeto se formou a temperaturas abaixo de -240°C, nas regiões mais afastadas de sua estrela de origem.

Para Lea Ferellec, pesquisadora do Departamento de Engenharia, Física e Matemática da Northumbria University, “este objeto nos dá uma chance rara de estudar material que se formou em um lugar completamente diferente do nosso Sistema Solar”. Segundo ela, “descobrir que ele é tão rico em nitrogênio nos diz que provavelmente se formou em condições extremamente frias, longe de sua estrela de origem”.

Dra. Lea Ferellec (Crédito: Northumbria University)
Dra. Lea Ferellec (Crédito: Northumbria University)

Terceiro visitante interestelar já catalogado

3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar identificado no Sistema Solar até hoje. Antes dele, os astrônomos registraram o 1I/’Oumuamua, em 2017, e o 2I/Borisov, em 2019.

O cometa foi descoberto em 1º de julho de 2025 e confirmado como corpo cometário no dia seguinte. Cada um desses visitantes se formou ao redor de outra estrela, o que torna sua composição química uma pista sobre como planetas e cometas se formam fora do Sistema Solar.

Como os cientistas identificaram os gases

O instrumento WEAVE permite observar uma área grande do céu de uma só vez e separar diferentes estruturas da cauda do cometa. Essa característica tornou possível isolar os sinais dos cinco íons em uma única observação, algo raro nesse tipo de estudo.

Segundo os autores, medições anteriores de cometas interestelares haviam identificado no máximo dois desses íons ao mesmo tempo. A equipe também observou que a quantidade do íon CH+ diminui ao longo da cauda, à medida que o gás se afasta do núcleo do cometa.

O que ainda não se sabe

Os próprios pesquisadores reconhecem limites no método. As proporções entre os íons não podem ser convertidas diretamente em quantidades das moléculas originais, porque a química da cauda é mais complexa do que a dos gases neutros que formam a coma do cometa.

Há também poucos cometas com esse tipo de medição disponível para comparação. Isso torna difícil saber se o padrão observado em 3I/ATLAS é comum ou raro entre objetos formados fora do Sistema Solar.

A equipe afirma que instrumentos como o WEAVE devem ajudar a mapear a composição de outros cometas interestelares que forem descobertos nos próximos anos.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe do Futuro Astrônomo. Astrônomo amador há mais de 30 anos, cobre descobertas científicas, missões espaciais e observação do céu desde 2002, quando lançou um dos primeiros blogs de astronomia do Brasil. Tem formação em jornalismo e está se especializando em planetologia. Também é fã de Star Trek.

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