Planeta com ano de 1,5 dia gira do jeito errado

CoRoT-2 b tem um ponto quente no lado errado e pode não estar preso à rotação esperada para Júpiteres quentes.

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Ilustração de um exoplaneta do tipo Júpiter quente. Imagem: Keith Miller (Caltech/IPAC - SELab)
Ilustração de um exoplaneta do tipo Júpiter quente. Imagem: Keith Miller (Caltech/IPAC – SELab)

Um estudo liderado por Aurora Kesseli, cientista do IPAC (Centro de Processamento e Análise de Infravermelho), do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), nos EUA, analisou o exoplaneta CoRoT-2 b e encontrou uma explicação provável para seu comportamento estranho.

O planeta parece não estar bloqueado por maré, algo que astrônomos costumam esperar de Júpiteres quentes.

Um planeta gigante com comportamento fora do padrão

CoRoT-2 b pertence à classe dos Júpiteres quentes. Esses planetas têm tamanho parecido ou maior que Júpiter e orbitam muito perto de suas estrelas.

Eles completam uma volta em torno da estrela em algo entre 1 e 10 dias. Essa proximidade aquece suas atmosferas e facilita a coleta de dados.

Por isso, astrônomos usam esses mundos como laboratórios naturais. Eles ajudam a testar modelos de formação, clima e dinâmica de exoplanetas.

O problema é que CoRoT-2 b não segue a receita esperada.

O ponto quente aparece no lado errado

Júpiteres quentes costumam mostrar um ponto quente no lado diurno. Esse ponto aparece ligeiramente deslocado na direção da rotação e da órbita.

CoRoT-2 b faz o contrário. Seu ponto quente aparece deslocado na direção oposta.

Lisa Dang identificou esse comportamento em 2018. O trabalho levantou três hipóteses principais:

  • nuvens escondendo parte da atmosfera,
  • campos magnéticos complexos, ou
  • rotação mais lenta que a órbita.

Kesseli analisou novos dados espectroscópicos do Very Large Telescope, no Observatório Europeu do Sul. O estudo aponta para a terceira hipótese.

O ano dura menos que o dia

A medição indica que um dia em CoRoT-2 b dura cerca de 3 dias terrestres. Já um ano no planeta dura aproximadamente 1,5 dia terrestre.

Ou seja, o planeta completa duas voltas em torno da estrela antes de terminar uma rotação em seu próprio eixo.

Esse resultado desafia uma suposição comum. Astrônomos esperam que Júpiteres quentes fiquem bloqueados por maré, com sempre o mesmo lado voltado para a estrela.

Esse bloqueio acontece quando a gravidade da estrela freia a rotação do planeta. A Lua faz algo parecido com a Terra, já que vemos sempre a mesma face lunar.

Por que isso importa para mundos habitáveis

A rotação muda a forma como um planeta distribui calor. Ela afeta ventos, temperaturas e clima.

Essa questão interessa também aos estudos de planetas rochosos ao redor de anãs M. Essas estrelas de baixa massa são muito comuns no Universo.

A zona habitável dessas estrelas pode ficar dentro da região onde o bloqueio por maré ocorre rápido. Por isso, entender a rotação ajuda a interpretar atmosferas em mundos potencialmente habitáveis.

“Agora podemos ver que um modelo único não funciona, mesmo para planetas que estudamos há muito tempo”, disse Kesseli em comunicado.

Próximos telescópios podem testar melhor esses modelos

O estudo, disponível no ArXiv, passou por apresentação durante a 248ª reunião da Sociedade Astronômica Americana, nos EUA.

O artigo segue submetido ao The Astronomical Journal. Porém, Kesseli e outros astrônomos ainda não sabem o que causa a rotação mais lenta.

Novos telescópios podem ampliar essa investigação. O Habitable Worlds Observatory e o Extremely Large Telescope devem permitir medições mais profundas em mais exoplanetas.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.

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