Fungo quase indestrutível pode sobreviver em Marte
Cepa encontrada em salas ultralimpas da NASA resistiu a radiação ultravioleta, vácuo espacial e condições parecidas com a superfície marciana.

Pesquisadores identificaram um fungo extremamente resistente em salas limpas usadas na montagem de espaçonaves da NASA. O estudo saiu na revista Applied and Environmental Microbiology e acende um alerta sobre contaminação em missões para Marte.
O problema não é trazer aliens para a Terra
A ficção científica costuma imaginar criaturas alienígenas chegando à Terra em naves ou amostras espaciais. Na vida real, a preocupação atual tem outro sentido.
Cientistas temem que micróbios terrestres viajem escondidos em sondas, rovers e módulos enviados a outros mundos. Isso poderia contaminar Marte e confundir a busca por uma possível vida nativa.
Ou seja, uma missão bilionária poderia encontrar micróbios no planeta vermelho e descobrir depois que eles vieram da própria Terra.
Um fungo que resiste ao que deveria matar
O novo estudo analisou cerca de duas dezenas de cepas de fungos isoladas em salas limpas da NASA. Esses ambientes recebem controles rigorosos para reduzir poeira, partículas e microrganismos.
Mesmo assim, alguns fungos resistiram à radiação ultravioleta usada em processos de limpeza antes do lançamento.
O caso mais impressionante envolve o Aspergillus calidoustus. Ele sobreviveu a longas exposições à radiação ultravioleta, ao vácuo espacial e a condições que imitam a superfície de Marte.
A cepa também resistiu ao aquecimento a 125 ºC. A NASA usa esse tipo de calor para esterilizar (em tese) espaçonaves destinadas à superfície marciana.
A lacuna na proteção planetária
À Scientific American, Atul Chander, microbiologista da Universidade do Mississippi, nos EUA, e autor principal do estudo, afirmou que a resistência desses fungos revela uma “lacuna crítica” nas estratégias de proteção planetária.
Proteção planetária é o conjunto de regras e técnicas para evitar contaminação entre mundos. O foco histórico recaiu muito sobre bactérias, mas os fungos agora entram no radar com força.
Essa discussão ganha urgência porque mais países e empresas privadas planejam missões interplanetárias. Algumas delas envolvem pousos, rovers, helicópteros e até retorno de amostras à Terra.
O que a NASA pode mudar
As políticas internacionais seguem diretrizes do Comitê de Pesquisa Espacial, o COSPAR. Elas ajudam países a cumprir o Tratado do Espaço Exterior de 1967.
Moogega Cooper, engenheira de proteção planetária do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, afirmou que a agência já tem procedimentos e treinamentos para orientar missões.
Por outro lado, Nick Benardini, oficial de proteção planetária da NASA, citou a metagenômica como uma ferramenta promissora. Ela permite mapear comunidades microbianas inteiras em ambientes como salas limpas.
Já Cassie Conley, ex-oficial de proteção planetária da NASA, vê o resultado como previsível. Para ela, a Terra abriga organismos capazes de suportar Marte, e ignorar isso seria apostar contra a própria biologia.
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