Supertempestade solar pode derrubar GPS e satélites

Uma tempestade solar extrema, capaz de ocorrer em uma janela de 100 a 200 anos, pode provocar falhas em satélites, pane em sistemas de GPS, interrupções de rádio e até apagões regionais.
O alerta aparece em um relatório técnico publicado pelo Conselho de Instalações de Ciência e Tecnologia, do Reino Unido. O tema importa porque boa parte da vida moderna depende de sinais, redes e equipamentos vulneráveis ao comportamento do Sol.
O que é o “tempo espacial”
Assim como a previsão do tempo ajuda a antecipar chuva ou calor, o chamado tempo espacial tenta prever a atividade do Sol e seus efeitos sobre a Terra. Esse campo acompanha um sistema complexo e caótico, que influencia desde a atmosfera superior até a operação de satélites.
Na prática, existem três tipos principais de tempo espacial:
- os apagões de rádio
- as tempestades geomagnéticas
- as tempestades de radiação solar
Cada uma nasce de um processo diferente. As erupções solares liberam energia intensa na atmosfera do Sol e podem aumentar a ionização da alta atmosfera terrestre. Isso atrapalha sinais de rádio. Já as tempestades geomagnéticas surgem quando fluxos rápidos de plasma atingem o campo magnético da Terra. O caso mais dramático envolve ejeções de massa coronal, que lançam grandes quantidades de plasma para o espaço.
O que pode falhar na prática
O relatório tenta responder como seria um pior cenário realista? A ideia não é projetar um desastre que só ocorreria uma vez em um milhão de anos. O foco está em um evento raro, mas plausível, dentro da escala de 100 a 200 anos.
Nesse cenário, redes elétricas entram na zona de risco. Durante tempestades geomagnéticas, correntes extras podem surgir em linhas de transmissão. Se a carga ficar forte demais, sistemas de proteção podem desligar partes da rede. O dano não termina no dia do evento. Transformadores podem sofrer desgaste acelerado, reduzindo a capacidade do sistema por meses ou até anos.
Satélites e GPS ficam na linha de frente
Os satélites estariam entre os primeiros afetados. Eles sustentam navegação, previsão do tempo e várias camadas da comunicação moderna. Partículas carregadas podem danificar eletrônicos de bordo e degradar painéis solares. Em casos severos, alguns sistemas podem falhar de forma permanente.
Há outro risco menos intuitivo. Raios X vindos do Sol podem aquecer a atmosfera terrestre e fazê-la expandir temporariamente. Isso aumenta o arrasto sobre satélites em órbita baixa, como se o espaço ficasse “mais espesso” por um tempo. Com isso, eles perdem altitude e podem até reentrar na atmosfera.
Algo nessa direção já aconteceu em 2022, quando até 40 satélites Starlink reentraram após serem lançados durante uma erupção solar. Em um cenário pior, operadores teriam mais dificuldade para rastrear espaçonaves e detritos.
Comunicações, voos e agricultura também sentem o impacto
O relatório aponta ainda risco para sistemas de navegação e comunicação por vários dias. Sinais de rádio podem ser abafados ou desviados pela instabilidade da ionosfera, uma camada alta da atmosfera. Isso atinge radar, navegação global e comunicações de longa distância.
As frequências UHF e VHF, usadas por aviões e navios em comunicações de longo alcance, também podem sofrer interrupções. Isso pode levar à suspensão de voos. Além da falha de comunicação, existe o risco de exposição à radiação para tripulações, com maior perigo em latitudes mais altas.
O impacto econômico também já deu sinais recentes. Em maio de 2024, a perda de navegação por satélite gerou prejuízo de US$ 500 bilhões para a indústria agrícola dos Estados Unidos, durante o evento mais forte desde outubro de 2003.
O lado positivo é que a capacidade de monitorar o Sol e prever tempestades solares está melhorando. Ou seja, o desafio não é imaginar um apocalipse. É ganhar tempo para proteger a infraestrutura da qual o mundo já não consegue abrir mão.
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