Cientistas flagraram planetas se formando “ao vivo”
O espaço acabou de mostrar um raro retrato de como o nosso Sistema Solar pode ter começado

Um grupo de astrônomos identificou dois planetas em formação no disco que circunda a estrela jovem WISPIT 2, em um achado que pode oferecer uma das imagens mais claras até agora de como o próprio Sistema Solar começou a tomar forma. O estudo foi publicado no periódico The Astrophysical Journal Letters e reforça a ideia de que o sistema pode se parecer com uma versão jovem da vizinhança cósmica onde a Terra nasceu.
A descoberta chama atenção porque esse é apenas o segundo sistema conhecido, depois de PDS 70, em que dois planetas foram observados diretamente enquanto ainda estão se formando ao redor de sua estrela.
No caso de WISPIT 2, porém, há um detalhe que aumenta o interesse científico: o disco planetário é muito extenso e exibe anéis e lacunas bem marcados, sinais clássicos de que novos mundos podem estar moldando essa estrutura por dentro.
Um retrato raro do nascimento de um sistema planetário

Para quem observa de fora, um disco planetário pode parecer apenas um grande anel de poeira e gás. Mas, para os astrônomos, ele funciona como um canteiro de obras cósmico. É nesse material que planetas começam a surgir, acumulando partículas, atraindo mais massa com sua gravidade e abrindo espaços ao seu redor.
Foi exatamente isso que os pesquisadores encontraram em WISPIT 2. Os dois planetas aparecem em lacunas bem definidas no disco da estrela. O material que sobra ao redor dessas regiões forma anéis de poeira, criando uma espécie de mapa visual do processo de formação planetária.
Segundo Chloe Lawlor, autora principal do estudo e doutoranda da Universidade de Galway, na Irlanda, o sistema representa o melhor vislumbre do nosso próprio passado já obtido até hoje. Isso porque, em vez de apenas estudar planetas já prontos, os cientistas estão vendo um sistema ainda em construção.
O que já se sabe sobre os dois planetas
O primeiro planeta recém-nascido encontrado no sistema, chamado WISPIT 2b, havia sido detectado no ano passado. Ele tem massa quase cinco vezes maior que a de Júpiter e orbita a estrela central a cerca de 60 vezes a distância entre a Terra e o Sol.
Agora, os astrônomos confirmaram a presença de um segundo planeta, WISPIT 2c. Esse novo mundo está quatro vezes mais perto da estrela central do que WISPIT 2b e tem massa duas vezes maior que a do primeiro planeta. Os dois são gigantes gasosos, categoria que inclui os planetas externos do nosso Sistema Solar.
Esse detalhe importa porque mostra que o sistema não está formando apenas um único planeta isolado. O que se vê ali é uma arquitetura mais complexa, com múltiplos corpos crescendo dentro do mesmo disco.
Como os telescópios confirmaram o novo mundo
Para confirmar que o segundo objeto era mesmo um planeta, a equipe usou instrumentos do Observatório Europeu do Sul. O SPHERE, instalado no Very Large Telescope, no Chile, registrou uma imagem do objeto. Depois, o GRAVITY+, no Interferômetro do Very Large Telescope, confirmou sua natureza planetária.
Os pesquisadores destacaram que a atualização recente do GRAVITY+ foi decisiva para obter uma detecção tão clara de um planeta tão próximo de sua estrela. Em observações desse tipo, esse desafio é comparável a tentar enxergar um pequeno ponto brilhando ao lado de uma fonte de luz muito intensa.
Pode haver ainda mais planetas escondidos ali
Além das lacunas ocupadas pelos dois planetas já observados, o disco de WISPIT 2 tem ao menos uma terceira abertura menor, mais distante. A equipe suspeita que ela possa estar sendo escavada por um terceiro planeta, possivelmente com massa parecida com a de Saturno.
A hipótese ainda precisa de novas observações, mas amplia o interesse sobre o sistema. Se confirmada, WISPIT 2 deixará de ser apenas um caso raro com dois planetas em formação e passará a ser um cenário ainda mais completo de nascimento planetário.
Por que essa descoberta merece atenção agora
WISPIT 2 se tornou um laboratório importante para entender como sistemas planetários bebês evoluem até virar arranjos maduros, como o nosso. Isso não significa que ele seja uma cópia do Sistema Solar, mas sim que pode ajudar a reconstruir etapas fundamentais desse processo.
Os pesquisadores já olham para os próximos instrumentos do Observatório Europeu do Sul. A expectativa é que o Extremely Large Telescope, ainda por vir, possa até obter uma imagem direta de um possível terceiro planeta no sistema. Se isso acontecer, os astrônomos terão em mãos um dos retratos mais completos já feitos de um sistema planetário nascendo diante dos nossos olhos.
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