Nova missão da NASA quer revelar por que Marte morreu
Missão com duas espaçonaves vai observar em tempo real como o Sol continua mudando Marte

Marte nem sempre foi o mundo árido e congelado que conhecemos hoje. Cientistas acreditam que o planeta já teve água corrente, uma atmosfera mais espessa e um clima muito mais quente. Agora, a NASA quer observar de perto o processo que ajudou a transformar esse antigo cenário em um deserto gelado.
Essa é a meta da missão ESCAPADE, formada por duas espaçonaves lançadas em 13 de novembro de 2025. A ideia é acompanhar como o vento solar continua retirando partículas da atmosfera marciana e, com isso, ajudar a responder uma das grandes perguntas sobre Marte: como ele perdeu sua habitabilidade.
O principal suspeito por trás da transformação de Marte
Hoje, Marte tem uma atmosfera fina, temperaturas baixas e pouca água na superfície. Mas, segundo os pesquisadores, nem sempre foi assim. Ao longo de bilhões de anos, o planeta teria perdido boa parte de seu envoltório gasoso sob a ação do vento solar, um fluxo constante de partículas carregadas que sai do Sol.
Esse processo funciona como uma erosão invisível. Em vez de desgastar rochas com água ou vento, ele vai retirando aos poucos partes da atmosfera do planeta. Com menos atmosfera, Marte perdeu calor com mais facilidade, esfriou e viu grande parte de sua água superficial desaparecer.
A missão ESCAPADE foi projetada justamente para observar esse mecanismo em ação.
Duas espaçonaves para ver o que uma só não consegue
O grande diferencial da missão está no uso de duas espaçonaves trabalhando em conjunto ao redor de Marte. Essa estratégia permite observar o ambiente magnético do planeta em dois pontos ao mesmo tempo, algo que uma missão tradicional, com apenas uma nave, não consegue fazer.
Na prática, isso oferece uma espécie de visão em profundidade. É como tentar entender uma tempestade olhando por duas janelas diferentes ao mesmo tempo, em vez de apenas uma. Com isso, os cientistas podem comparar o que chega do Sol com a resposta de Marte quase em tempo real.
Segundo Michele Cash, cientista do programa ESCAPADE na sede da NASA, esse arranjo deve ajudar a entender a relação de causa e efeito entre o vento solar e o campo magnético marciano.
Como a missão vai investigar o vazamento da atmosfera
Quando chegarem a Marte, no ano que vem, as duas naves vão começar viajando pela mesma trajetória orbital, passando pelas mesmas regiões em momentos ligeiramente diferentes. Isso permitirá identificar onde e quando ocorrem mudanças no ambiente magnético do planeta.
De acordo com Rob Lillis, investigador principal da missão, essa abordagem permitirá monitorar variações em intervalos tão curtos quanto dois minutos. Isso abre espaço para medições que, segundo ele, nunca puderam ser feitas antes.
Após cerca de seis meses, as espaçonaves passarão a ocupar órbitas diferentes. Uma ficará mais próxima de Marte, enquanto a outra viajará mais distante. Nessa fase, que deve durar cinco meses, uma delas poderá observar o vento solar se aproximando, enquanto a outra registra a resposta do planeta dentro de sua magnetosfera.
Esse desenho experimental é importante porque, em missões anteriores, as espaçonaves ficavam ou no vento solar antes de ele atingir Marte, ou perto do planeta observando sua magnetosfera. Agora, pela primeira vez, será possível medir a causa e o efeito ao mesmo tempo.
Um planeta muito mais exposto do que a Terra
Entender esse ambiente também é essencial para futuras missões tripuladas. Astronautas que viajarem para Marte enfrentarão uma exposição muito maior à radiação solar do que as pessoas na Terra.
Nosso planeta conta com um forte campo magnético global, que atua como um escudo contra partículas energéticas vindas do Sol. Marte também teve um campo magnético mais forte no passado, mas ele enfraqueceu com o tempo.
Hoje, o planeta apresenta regiões espalhadas de magnetismo em sua crosta e um campo magnético variável, criado quando o vento solar interage com partículas carregadas na parte superior da atmosfera. Essa combinação forma o que os cientistas chamam de magnetosfera híbrida.
O problema é que essa proteção é limitada. Com isso, partículas energéticas conseguem atingir a superfície marciana com mais facilidade. Somada à atmosfera fina, essa condição cria um ambiente desafiador para futuros exploradores humanos.
Comunicação em Marte também entra na equação
A missão deve ainda melhorar o entendimento da ionosfera de Marte, uma região da alta atmosfera importante para comunicações e navegação ao redor do planeta.
Esse ponto é estratégico. Futuros astronautas dependerão desse ambiente para transmitir sinais de rádio e, possivelmente, para sistemas de navegação de longa distância. Ou seja, compreender a ionosfera marciana será essencial para tornar operações humanas no planeta mais seguras e eficientes.
Um caminho incomum até o planeta vermelho
A ESCAPADE também testa uma rota diferente para Marte. Em vez de seguir diretamente ao planeta, as espaçonaves estão contornando um ponto no espaço situado a cerca de 1,5 milhão de km da Terra, conhecido como ponto de Lagrange 2.
Quando Terra e Marte voltarem a se alinhar em novembro de 2026, as naves passarão novamente perto da Terra e usarão sua gravidade para ganhar impulso rumo ao planeta vermelho. A chegada está prevista para setembro de 2027.
Durante essa fase, a missão também fará ciência ao redor da Terra. As espaçonaves vão percorrer uma órbita ampla de cerca de 3 milhões de km e atravessar uma região ainda não explorada da magnetocauda terrestre, a parte do campo magnético da Terra que se estende na direção oposta ao Sol.
Depois, ao longo da viagem de 10 meses até Marte, continuarão estudando o vento solar e as condições magnéticas do espaço interplanetário, justamente o ambiente que astronautas terão de cruzar em missões futuras.
No fim das contas, a ESCAPADE não investiga apenas o passado de Marte. Assim, ela também ajuda a desenhar o futuro da exploração humana do planeta.
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