Astrônomos revelam planeta “infernal” com cheiro de ovo podre

Exoplaneta a 34 anos-luz tem céu sufocante e superfície derretida

Concepção artística do exoplaneta L 98-59 d. Imagem: ESO
Imagem: ESO

Um planeta relativamente próximo da Terra acaba de entrar para a lista dos mundos mais extremos já descritos por astrônomos. Chamado L 98-59 d, ele orbita uma estrela anã vermelha a cerca de 34 anos-luz de distância e apresenta uma paisagem que lembra uma versão cósmica de um inferno: um oceano global de magma, atmosfera espessa e tóxica rica em enxofre e calor suficiente para manter a superfície permanentemente derretida.

O resultado chama atenção não apenas pelo aspecto dramático do planeta, mas porque ele parece reunir uma combinação rara de características. Entre os mais de 6.100 exoplanetas já descobertos desde os anos 1990, nenhum outro conhecido foi descrito com essa mesma mistura de oceano de magma e atmosfera carregada de enxofre.

A descoberta foi publicada na revista Nature Astronomy.

Um planeta maior que a Terra, mas muito menos denso

L 98-59 d tem diâmetro mais de 60% maior que o da Terra. Ainda assim, sua densidade é de apenas cerca de 40% da densidade do nosso planeta. Essa diferença ajuda a explicar por que ele não se parece com um mundo rochoso comum.

Segundo os pesquisadores, o interior do planeta parece ser dominado por um oceano de magma que ocupa entre 70% e 90% do raio interno do planeta. Não se trata de bolsões isolados de rocha líquida, como o magma que pode subir em vulcões na Terra. No caso de L 98-59 d, o planeta parece ser quase inteiro marcado por esse material quente e pastoso em profundidade, sem a organização em camadas mais familiares que vemos aqui.

Um mundo sem crosta, sem manto dividido e sem superfície sólida

Na Terra, o interior é dividido em crosta, manto superior, manto inferior e núcleo. Em L 98-59 d, essa estrutura aparentemente não existe da mesma forma.

De acordo com Harrison Nicholls, pesquisador do Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor principal do estudo, o planeta não apresenta uma estrutura distinta dentro de seu oceano de magma. Em vez disso, o material derretido forma uma única camada profunda e pastosa. Pequenos cristais de rocha sólida podem até estar presos nesse fluido turbulento, mas não há indicação de uma crosta consolidada sobre a superfície.

Isso torna o planeta diferente não só da Terra atual, mas também da imagem clássica que muitas vezes se faz de um planeta rochoso: uma esfera sólida com apenas alguns pontos vulcânicos. Aqui, a lógica é outra. O mundo inteiro parece viver em um estado de instabilidade térmica permanente.

A atmosfera é um dos pontos mais incomuns

Se o oceano de magma já bastaria para tornar L 98-59 d um caso extremo, a atmosfera eleva ainda mais o grau de estranheza. Ela é composta principalmente por hidrogênio, mas contém uma quantidade muito alta de enxofre.

Cerca de 10% dessa atmosfera é formada por sulfeto de hidrogênio, gás tóxico conhecido pelo cheiro característico de ovo podre. Além disso, a superfície do planeta supera 1.500 °C, calor muito acima do que seria necessário para sustentar vida como a conhecemos.

Os pesquisadores indicam que essa atmosfera desencadeou um efeito estufa descontrolado. Em termos simples, funciona como uma tampa térmica: a energia recebida da estrela entra, mas o calor fica retido com enorme eficiência. O resultado é um planeta que não consegue esfriar o suficiente para solidificar sua superfície.

Um ciclo infernal que se alimenta sozinho

O caso de L 98-59 d é particularmente interessante porque não se trata apenas de um planeta muito próximo de sua estrela e, por isso, torrado por radiação extrema. Segundo os pesquisadores, esse não é o quadro completo.

A atmosfera quente tem papel central em impedir que o magma endureça e vire rocha. Ao mesmo tempo, o próprio oceano de magma ajuda a manter essa atmosfera severa. É como se os dois elementos se sustentassem mutuamente em um ciclo de calor contínuo.

Além disso, dois fatores secundários também contribuem para aquecer o planeta: a radiação emitida pela estrela e as interações gravitacionais com os outros planetas do sistema.

Observado pelo James Webb e reconstruído por simulações

L 98-59 d foi descoberto em 2019. Depois disso, ele foi observado pelo telescópio espacial James Webb em 2024 e por telescópios na Terra em 2025. A equipe também usou simulações avançadas de computador para reconstruir a história do planeta ao longo de quase 5 bilhões de anos.

Esse trabalho sugere que o planeta é um pouco mais velho que a Terra. Também indica que sua composição mineralógica pode ser diferente da encontrada nos planetas do nosso Sistema Solar, justamente por causa do alto teor de enxofre inferido a partir da atmosfera.

Os pesquisadores deixam claro que a composição exata do material fundido ainda não é conhecida. Mesmo assim, a interpretação dos dados aponta para um interior quimicamente incomum.

A estrela é pequena, mas o ambiente é brutal

O planeta orbita uma anã vermelha, tipo de estrela muito comum na Via Láctea. Essa estrela tem massa um pouco abaixo de 30% da massa do Sol e luminosidade de cerca de 1% da luminosidade solar.

No sistema, L 98-59 d é o terceiro de cinco planetas conhecidos. Mesmo com uma estrela menor e menos brilhante que o Sol, as condições locais são suficientes para manter esse cenário extremo, principalmente por causa da interação entre atmosfera, calor interno e dinâmica orbital.

Ou seja, mundos alienígenas não precisam orbitar estrelas gigantes para se tornarem ambientes radicais. Às vezes, uma combinação específica de composição, atmosfera e história térmica basta para criar algo completamente fora do padrão.

Vida? Neste caso, a resposta é praticamente não

Em meio à busca por planetas potencialmente habitáveis, L 98-59 d segue na direção oposta. A temperatura superficial acima de 1.500 °C torna o planeta incompatível com a vida como conhecemos.

Isso não diminui sua importância científica. Pelo contrário. Mundos assim ajudam a testar modelos sobre formação planetária, evolução térmica e composição química de exoplanetas. Eles também lembram que o universo não produz apenas versões alternativas da Terra, mas uma enorme variedade de ambientes extremos.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.