Poema de 800 anos pode ter registrado explosão na Via Láctea
Pesquisadores ligaram um poema árabe do século 12 à supernova de 1181, um evento raro visto antes da era dos telescópios.

Astrônomos e especialistas em textos árabes identificaram em um poema do século 12 uma possível descrição da supernova de 1181. O registro cita uma “nova estrela” perto de Cassiopeia e pode ajudar a datar melhor uma explosão ocorrida na Via Láctea.
A descoberta, disponível no ArXiv, é importante porque supernovas históricas funcionam como relógios cósmicos. Dessa forma, quanto melhor conhecemos a data da explosão, melhor entendemos o remanescente deixado por ela.
O problema de estudar explosões antigas
A última supernova observada na Via Láctea ocorreu em 1604. Johannes Kepler viu o fenômeno, mas ninguém tinha um telescópio para estudá-lo em detalhe.
Por isso, astrônomos dependem de remanescentes de supernova, restos estes que incluem gás, poeira e estrelas alteradas pela explosão.
Eles mostram como uma estrela morreu e como lançou material ao espaço. O desafio está em ligar cada remanescente ao evento original visto no céu.
Registros chineses e japoneses ajudam nesse trabalho. Agora, um estudo aponta que textos árabes também podem guardar pistas relevantes.
Uma “nova estrela” em um poema
De acordo com a Sky and Telescope, o caso envolve Ibn Sanā’ al-Mulk, poeta que escreveu no Cairo durante o século 12. Ele compôs um poema para elogiar Saladino, líder associado às campanhas contra os cruzados.
No texto, aparece a palavra “najm”, traduzida como estrela. Os autores do estudo avaliam que o termo poderia incluir uma supernova, já que o céu ganhou um objeto novo e brilhante.
A localização citada também chama atenção. O poema posiciona a estrela em ou perto de al-Kaff al-Khabīb, a “Mão Tingida”.
Esse asterismo corresponde às cinco estrelas brilhantes que hoje associamos à constelação de Cassiopeia. Essa região combina com os registros asiáticos da supernova de 1181.
A data veio da política da época
O texto elogia Saladino e seu irmão. Isso faz mais sentido se os dois estivessem no mesmo lugar para ouvir a composição.
Os dois estavam no Egito em 1181 ou 1182. O poema também celebra a defesa de Meca, associada a um ataque cruzado de dezembro de 1181.
Com essas referências, os pesquisadores limitam a data provável do poema entre dezembro de 1181 e maio de 1182, quando Saladino deixou o Egito.
O que isso muda para a astronomia
A supernova de 1181 já aparecia em registros históricos do Leste Asiático. Durante algum tempo, astrônomos associaram o evento a um pulsar específico.
Essa hipótese perdeu força porque o remanescente parecia antigo demais. Outro candidato ganhou atenção, a estrela IRAS 00500+6713.
Ela aparece cercada por uma nebulosa com idade aproximada de mil anos. Ainda falta saber se esse sistema poderia sobreviver a uma supernova.
Se o poema realmente descreve a explosão, ele oferece uma idade mais precisa para comparar com esse remanescente. Também mostra que o fenômeno circulou fora de registros técnicos.
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