Marte mantém vivo seu mistério do metano
O ExoMars Trace Gas Orbiter não encontrou metano em Marte após 8 anos, apesar de sinais anteriores medidos por outros instrumentos.

A sonda ExoMars Trace Gas Orbiter, da ESA (Agência Espacial Europeia), ainda não encontrou metano na atmosfera de Marte após oito anos de observações. O resultado mantém aberto um dos principais debates da astrobiologia marciana.
O metano pode surgir tanto de processos biológicos como geológicos. A dúvida central é se Marte já teve (ou ainda tem) condições reais para vida microbiana?
O gás que virou enigma em Marte
O mistério ganhou força em 2004, quando a Mars Express iniciou suas operações científicas ao redor do planeta. Durante o primeiro ano, um espectrômetro registrou um sinal fraco associado ao metano.
A medição estava no limite da sensibilidade do instrumento. Na mesma época, dois grupos independentes usaram telescópios terrestres e também relataram sinais de metano na atmosfera marciana.
Depois, o rover Curiosity registrou várias detecções usando seu espectrômetro a laser ajustável. Essas medições ampliaram o debate, porque vieram direto da superfície.
Por que o Trace Gas Orbiter complica a história
O Trace Gas Orbiter tem como objetivo principal detectar gases-traço. Essa categoria inclui compostos de enxofre, cloro e metano, mesmo em concentrações muito baixas.
Kevin Olsen, cientista planetário da Universidade de Oxford, na Inglaterra, afirma que o instrumento tem sensibilidade muito maior que o conjunto de análise de amostras do Curiosity.
“Temos sensibilidade mil vezes melhor que a suíte de análise de amostras do rover Curiosity, mas não vemos nenhum sinal de absorção de metano na atmosfera marciana”, disse Olsen ao Universe Today.
Para ele, a explicação mais simples é “ele não está lá”. O problema é que outros instrumentos viram algum sinal que ainda exige explicação.
Vida, rochas ou erro de leitura?
Se o metano viesse de micróbios, outras moléculas orgânicas poderiam aparecer junto dele. Isso apontaria para metanogênese, processo em que micróbios anaeróbios produzem metano ao obter energia.
Uma origem sem vida também faria sentido. Olsen cita metamorfismo ativo de rochas, processo que ocorre no subsolo, sob pressão, calor, água e energia química.
Essa alternativa ainda preserva o interesse científico. Ela indicaria atividade geológica capaz de alterar minerais e liberar gases.
O único gás novo encontrado até agora
O TGO encontrou cloreto de hidrogênio como único gás-traço novo até aqui. Esse composto funciona como reservatório estável de cloro.
O cloro interessa porque pode se relacionar a vulcanismo. Enxofre e metano também poderiam indicar atividade vulcânica ou liberação magmática.
Até agora, os instrumentos não mediram enxofre nem metano. Essa ausência reduz as pistas disponíveis sobre processos ativos no planeta.
O próximo teste virá do subsolo
A próxima etapa pode vir com o rover Rosalind Franklin, da ESA, programado para lançamento em 2029. Seu diferencial será uma broca capaz de acessar material abaixo da superfície.
Porém, Olsen mantém cautela. “Acredito que Marte seja atualmente habitável”, disse. “E ainda não desisti do metano.”
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