Vida da Terra pode ter pegado carona até Vênus

Novo modelo sugere que impactos antigos podem ter lançado micróbios terrestres até as nuvens de Vênus.

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Foto de Vênus captada pela sonda japonesa Akatsuki em 2016.
Foto de Vênus captada pela sonda japonesa Akatsuki em 2016. Imagem: JAXA/ISAS/DARTS/Kevin M. Gill

A Terra pode ter enviado micróbios para Vênus por bilhões de anos. Um estudo apresentado na Conferência de Ciência Lunar e Planetária de 2026 sugere que impactos de asteroides podem lançar material terrestre ao espaço.

Dessa forma, se futuras missões encontrarem vida nas nuvens do planeta, ela talvez não tenha surgido ali. Ela pode ter chegado da Terra, em partículas expulsas por colisões antigas.

A hipótese da panspermia

A panspermia propõe que vida (ou seus ingredientes) pode viajar entre mundos em rochas, poeira e fragmentos lançados por impactos.

A discussão costuma envolver Terra e Marte. Meteoritos marcianos já chegaram ao nosso planeta, e cientistas investigam há décadas se materiais biológicos poderiam sobreviver nesse trânsito.

Agora, o interesse cresceu porque as nuvens de Vênus ainda aparecem como um possível ambiente para micróbios, apesar da superfície quente e hostil.

Como a Terra poderia enviar vida para outro planeta

De acordo com o ScienceDaily, um grande impacto pode arrancar material da superfície terrestre e lançar fragmentos para o espaço. Esses fragmentos enfrentam choque, calor, vácuo, radiação e variações extremas de temperatura.

Simulações anteriores e análises de meteoritos indicam que material orgânico pode sobreviver à ejeção e à viagem interplanetária.

O desafio maior surge ao chegar a Vênus. O material precisaria entrar na atmosfera e permanecer nas nuvens, onde as condições teriam mais chance de permitir alguma sobrevivência temporária.

O modelo usado pelos pesquisadores

Pesquisadores do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins e dos Laboratórios Nacionais Sandia, nos EUA, usaram a Equação da Vida em Vênus:

L = O x R x C

Em que L é a probabilidade de vida existente atualmente, em uma escala de 0 a 1, na qual 0 significa nenhuma chance e 1 significa certeza; O é a origem, ou seja, a chance de a vida ter surgido e se estabelecido em Vênus; R é a robustez, isto é, o potencial de uma biosfera existir e resistir a mudanças; e C é a continuidade, ou seja, a chance de que condições habitáveis tenham persistido até hoje.

Esse modelo, criado em 2021, estima a chance de vida ao combinar três fatores. A equipe também simulou como meteoros brilhantes entram na atmosfera venusiana. Para isso, usou o chamado modelo panqueca, que descreve a fragmentação de um corpo durante a queda atmosférica.

Depois da explosão no ar, os fragmentos se espalham em uma camada achatada. O estudo trata essas unidades como células capazes de se dispersar nas nuvens.

Bilhões de possíveis transferências

Os cálculos indicam que centenas de bilhões de células podem ter chegado de Terra (ou Marte) às nuvens de Vênus. Centenas de bilhões poderiam manter viabilidade, dentro das hipóteses do modelo.

Na estimativa preferida pelos autores, cerca de 100 células se dispersam pelas nuvens de Vênus a cada ano terrestre.

Em 1 bilhão de anos, aproximadamente 20 bilhões de células podem ter viajado da Terra para Vênus.

O que isso significa para futuras missões

O estudo não afirma que existe vida em Vênus. Ele também não prova que micróbios terrestres colonizaram suas nuvens.

A conclusão é que a transferência de material biológico da Terra para Vênus parece possível dentro dos modelos usados.

Esse detalhe pode afetar a interpretação de futuras descobertas. Uma missão astrobiológica em Vênus precisará perguntar não só se existe vida ali, mas de onde ela veio.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.

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