Missão da ESA vê um comportamento estranho no vento solar
Proba-3 detectou vento solar na coroa interna do Sol até quatro vezes mais rápido que o previsto em observações inéditas.

A missão europeia Proba-3 entregou seus primeiros resultados científicos com uma surpresa importante. Ao observar a coroa solar interna, região da atmosfera do Sol onde nasce o clima espacial, a dupla de satélites da ESA (Agência Espacial Europeia) detectou estruturas do vento solar se movendo de três a quatro vezes mais rápido do que os cientistas esperavam.
O resultado, publicado na The Astrophysical Journal Letters, apareceu após meses de observações iniciadas em julho de 2025. Desde então, a missão já criou 57 eclipses solares artificiais e reuniu mais de 250 horas de vídeos em alta resolução da coroa. Isso equivale ao tempo total de observação de cerca de 5.000 campanhas de eclipse total realizadas na Terra.
Como a missão “apaga” o Sol no espaço
Antes da Proba-3, eclipses totais vistos da Terra eram a melhor chance para enxergar a coroa solar interna. O problema é que esses eventos acontecem, em média, uma vez a cada 18 meses, e a fase total dura só alguns minutos.
A Proba-3 contorna esse limite de um jeito engenhoso. Seus dois satélites voam em formação com precisão extrema. Durante cerca de cinco horas por vez, uma das espaçonaves atua como uma Lua artificial e bloqueia a luz direta do Sol. A outra observa a coroa com um instrumento chamado ASPIICS.
Esse coronógrafo consegue enxergar até 70.000 km acima da superfície solar, o equivalente a um décimo do raio do Sol.
O que apareceu na coroa solar
O ASPIICS registra uma ou duas imagens por minuto. Depois, os pesquisadores juntam essas imagens em vídeos. O resultado mostra movimentos nunca vistos com esse nível de detalhe na coroa solar interna. Veja o vídeo abaixo:
O “vento solar lento” não era tão lento assim
Além de luz, o Sol emite um fluxo de partículas chamado vento solar. Ele pode ser rápido ou lento, mais uniforme ou irregular. O vento solar rápido costuma sair de regiões magnéticas chamadas buracos coronais. Já o vento solar lento varia bastante, o que dificulta entender seu funcionamento.
Os cientistas acreditam que esse vento lento surge quando linhas do campo magnético solar mudam suas conexões, se unem e se separam novamente. Esse processo empurra bolhas de plasma, um gás eletricamente carregado, para grandes estruturas brilhantes da coroa chamadas streamers.
Foi nessa região difícil de observar que a equipe encontrou o dado mais intrigante. Andrei Zhukov, do Observatório Real da Bélgica e autor principal do estudo, afirmou que rajadas de vento solar lento apareciam se movendo de 250 km/s a 500 km/s. Antes, os cientistas estimavam velocidades próximas de 100 km/s nessa área.
Por que isso importa
A descoberta sugere que a região onde nasce o clima espacial pode ser mais dinâmica do que se imaginava. Os dados também mostram velocidades, acelerações e direções muito variadas, o que ajuda a explicar por que o vento solar lento continua tão difícil de decifrar.
Zender afirmou que esse primeiro conjunto de dados é apenas o começo e que agora caberá a especialistas teóricos comparar os resultados com modelos do campo magnético e da aceleração de plasma na coroa solar.
A maior parte das observações feitas até aqui ainda nem passou por análise. Entre as perguntas em aberto estão o que acelera o vento solar, como o Sol lança material em ejeções de massa coronal e por que a coroa solar é muito mais quente do que o próprio Sol.
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