Hera ajusta rota para interceptar asteroide desviado pela humanidade

Missão europeia avança rumo a asteroide histórico e testa defesa da Terra na prática

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Ilustração da sonda Hera se aproximando de Didymos e Dimorphos.
Ilustração da sonda Hera se aproximando de Didymos e Dimorphos. Imagem: ESA

A missão Hera, da Agência Espacial Europeia (ESA), deu um passo decisivo em sua viagem até o sistema binário de asteroides Didymos. Após completar com sucesso uma grande manobra no espaço, a nave agora segue no rumo certo para chegar ao alvo ainda este ano, em uma missão que pode ajudar a mudar a forma como a humanidade pensa em defesa planetária.

O destino da Hera não é qualquer conjunto de rochas espaciais. Didymos e sua pequena lua, Dimorphos, formam o único sistema de asteroides conhecido cuja órbita já foi modificada deliberadamente por ação humana. Foi ali que a missão DART, da NASA, colidiu com Dimorphos para testar se seria possível alterar a trajetória de um corpo celeste por impacto cinético.

Agora, a Hera vai assumir a etapa mais detalhada dessa história: examinar de perto o que realmente aconteceu depois da colisão.

O que a Hera quer descobrir em Didymos

A missão foi planejada para responder às perguntas que ficaram abertas após o impacto da DART. Em vez de apenas confirmar que houve mudança orbital, a Hera deverá investigar com mais profundidade como o sistema reagiu e quais efeitos a colisão produziu.

Na prática, isso é essencial para transformar a ideia de desviar asteroides com impacto em uma técnica compreendida de forma mais precisa e repetível. Ou seja, sair do teste bem-sucedido e avançar para um método que possa um dia ser usado de forma confiável para proteger a Terra.

Reveja o impacto da sonda DART em Dimorphos:

A maior manobra da missão até agora

A Hera concluiu recentemente a segunda de duas manobras realizadas em sua jornada entre a Terra e Didymos. Essa etapa consumiu 123 quilos de hidrazina, o combustível usado pela nave, e alterou sua velocidade em 367 metros por segundo.

A ESA compara essa variação a um objeto saindo do repouso e acelerando até velocidades supersônicas. É uma mudança significativa para uma nave que precisa chegar com enorme precisão a um alvo pequeno e distante.

Segundo Francesco Castellini, da equipe de Dinâmica de Voo do Centro Europeu de Operações Espaciais, na Alemanha, a manobra foi dividida em três queimas principais de motor e uma quarta correção menor ao longo de cerca de quatro semanas.

Além de ajustar a trajetória da sonda, esse procedimento teve outro papel importante: testar os sistemas que serão necessários nas manobras de frenagem e de encontro com os asteroides mais adiante neste ano.

Tudo funcionou como esperado

Os dados de rastreamento da rede Estrack, o sistema europeu de antenas de espaço profundo, confirmaram o sucesso da operação. A telemetria enviada pela própria nave também mostrou que todos os subsistemas se comportaram conforme o esperado.

Esse tipo de confirmação é fundamental em missões interplanetárias, nas quais cada correção de rota precisa ser executada com alta precisão. Um pequeno erro acumulado ao longo de milhões de quilômetros pode comprometer a aproximação final.

Com essa etapa superada, a equipe da Hera passou a concentrar seus esforços na fase mais delicada da missão: a chegada a Didymos.

Uma atualização de software enviada do espaço profundo

Para se preparar para operar perto dos asteroides, a nave está recebendo atualizações extensas em seu software de bordo. Essas modificações foram planejadas para melhorar a capacidade da Hera em executar operações de proximidade, algo especialmente importante quando o alvo não é um planeta grande e fácil de enxergar, mas dois corpos pequenos, escuros e difíceis de observar.

Entre as novidades estão novos recursos para o altímetro a laser, que acompanhará continuamente a distância entre a nave e os asteroides, e para a câmera de monitoramento que deverá registrar e confirmar visualmente a liberação dos dois CubeSats da missão.

Segundo Anna Schiavo, da equipe de controle de voo, enviar novo software para a Hera através do espaço profundo é como fazer uma videochamada com um amigo em Marte usando apenas 0,004% da velocidade de uma conexão doméstica típica de internet… e ainda com um atraso de 20 minutos entre falar e ouvir a resposta.

Só o envio do software à espaçonave, que é apenas a primeira etapa de toda a atualização, leva cerca de três horas.

A aproximação será lenta e exigente

Em outubro, a Hera iniciará uma sequência de queimas de motor cuidadosamente cronometradas para sair da fase de cruzeiro interplanetário e entrar na fase de encontro com os asteroides.

Diferentemente de destinos maiores, a sonda precisará procurar ativamente pelos dois corpos e mantê-los centralizados em seu campo de visão enquanto se aproxima.

Esse processo deve durar cerca de três semanas e colocará no limite os sistemas de orientação, navegação e controle da missão. É como tentar se aproximar de dois objetos pouco iluminados em movimento, no espaço profundo, mantendo uma trajetória precisa o bastante para operar com segurança ao redor deles.

Por que essa missão importa para a Terra

A grande promessa da Hera está em algo que vai além da engenharia espacial. A missão pode ajudar a transformar a defesa planetária de conceito experimental em ferramenta prática.

O impacto da DART mostrou que a humanidade consegue interferir na órbita de um asteroide. A Hera agora vai estudar esse resultado com mais profundidade para entender o que realmente mudou, em que escala e com quais implicações.

Isso é decisivo porque, no futuro, qualquer tentativa real de proteção da Terra contra um objeto ameaçador exigirá muito mais do que coragem tecnológica. Será necessário ter previsibilidade, método e conhecimento detalhado sobre como esses corpos respondem a uma colisão planejada.

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.