Starship vira ameaça real ao cronograma da NASA na Lua

Relatório aponta atrasos da Starship e vê no reabastecimento em órbita o principal risco para a meta da NASA de voltar à Lua em 2028.

starship

A NASA enfrenta um novo sinal de alerta em seu plano de voltar à Lua com astronautas. De acordo com a Reuters, um relatório do inspetor-geral da agência aponta que a Starship, da SpaceX, já acumula pelo menos dois anos de atraso desde que foi escolhida, em 2021, como módulo de pouso lunar do programa Artemis. Ela ainda deve precisar de mais tempo para vencer etapas técnicas decisivas.

O plano da NASA para recolocar astronautas na superfície da Lua depende, em grande parte, de uma nave que ainda não demonstrou todas as capacidades exigidas para essa missão.

O alerta vem do inspetor-geral da NASA, órgão de fiscalização interna que acompanha custos, cronogramas e riscos técnicos. A avaliação é direta: a empresa de Elon Musk ainda terá de superar obstáculos complexos antes de colocar astronautas na Lua, e isso pode pressionar novamente o calendário da agência.

A preocupação não é pequena. O programa Artemis é a principal aposta dos Estados Unidos para retomar missões tripuladas lunares e estabelecer uma presença mais rotineira no entorno e na superfície do satélite natural da Terra. Nesse esforço, a NASA trabalha com várias empresas (com destaque para SpaceX e Blue Origin) sob a pressão estratégica de avançar antes que a China leve seus próprios astronautas à Lua, algo previsto para ocorrer por volta de 2030.

O prazo original já ficou para trás

Concepção artística de uma versão modificada do foguete Starship para o programa Artemis

Quando a Starship foi selecionada pela NASA, o objetivo inicial apontava para um pouso lunar em 2024. Mas, ainda naquela época, autoridades já tratavam essa meta com ceticismo.

Agora, o que era desconfiança virou atraso formalizado. O relatório indica que o desenvolvimento do sistema já escorregou pelo menos dois anos. E o cenário ainda sugere mais demora pela frente.

No mês passado, a própria NASA acrescentou uma missão extra de testes ao Artemis e reconheceu publicamente os desafios técnicos enfrentados por suas contratadas. Ainda assim, a agência manteve 2028 como data-alvo para o primeiro pouso lunar com a Starship.

O maior desafio está longe da Lua… e começa na órbita da Terra

A etapa mais delicada talvez nem envolva o pouso lunar em si. O ponto que mais preocupa a NASA, segundo o relatório, é a necessidade de a Starship se reabastecer no espaço antes de seguir viagem até a Lua.

Na prática, isso significa montar uma espécie de operação de “posto de combustível orbital” em pleno espaço. E não com uma ou duas manobras simples, mas com uma sequência longa, precisa e arriscada de lançamentos, acoplamentos e transferências de propelente.

Para que uma única Starship consiga pousar astronautas na Lua, a SpaceX precisará primeiro lançar mais de 11 outras Starships para a órbita da Terra. Essas naves funcionarão como tanques de abastecimento. Uma delas servirá como depósito de propelente, e mais de 10 Starships serão necessárias para enchê-la com combustível suficiente a ser transferido para a nave que fará a missão lunar.

É uma arquitetura impressionante em escala, e justamente por isso tão sensível. Cada etapa adicional amplia as chances de atraso, falha operacional ou necessidade de revisão técnica.

Combustível supergelado, tráfego espacial intenso e uma manobra inédita

Ilustração do foguete Starship acoplado à espaçonave Orion, da NASA.

A complexidade aumenta ainda mais por causa do tipo de combustível usado pela Starship. A nave, mais alta do que um edifício de 15 andares, é abastecida com cerca de 1.200 toneladas métricas de metano líquido e oxigênio líquido. Esses dois propelentes são altamente explosivos e precisam ser mantidos em temperaturas criogênicas, ou seja, abaixo de -150 °C.

Transportar e transferir esse material já é um desafio na Terra. Fazer isso no espaço, repetidamente, entre veículos acoplados em órbita baixa da Terra, é um problema muito maior.

Segundo o relatório, as Starships terão de se conectar e transferir esses propelentes super-resfriados ao menos 10 vezes. E tudo isso em uma região espacial cada vez mais movimentada, importante do ponto de vista político e comercial, com tráfego crescente de satélites.

Na prática, não se trata apenas de “encostar uma nave na outra”. É mais parecido com tentar abastecer caminhões-tanque em movimento, em uma estrada congestionada, usando combustível que precisa permanecer extremamente gelado o tempo todo para não perder suas propriedades operacionais.

A NASA vê nessa etapa um dos maiores riscos técnicos do programa

O relatório é claro ao apontar que a demonstração da transferência criogênica de propelente é vista pelos responsáveis da NASA como um dos maiores desafios técnicos enfrentados pela SpaceX.

O documento diz que a agência acompanha como risco principal a possibilidade de que parte dessas tecnologias criogênicas e capacidades em desenvolvimento pela empresa não esteja madura o suficiente antes de um pouso lunar em 2028.

A SpaceX já mostrou avanços visíveis com testes da Starship, mas o que a NASA precisa agora é comprovação operacional em uma missão com exigência humana extrema.

Muitos voos de teste, mas ainda um longo caminho até levar astronautas

Desde 2023, a SpaceX lançou o sistema Starship 11 vezes em voos de teste acompanhados de perto pela NASA. Isso mostra que o veículo está em uma fase ativa de desenvolvimento e aprendizado rápido, algo comum em programas espaciais ambiciosos.

Mas também revela o tamanho da distância entre testar um sistema e qualificá-lo para levar astronautas à Lua. No caso do Artemis, o veículo não precisa apenas voar: ele precisa funcionar com segurança dentro de uma cadeia muito mais complexa de operações, prazos e integrações.

A NASA planeja usar a Starship em duas missões lunares tripuladas a partir de 2028. Depois disso, missões semelhantes devem contar com a Blue Origin como fornecedora de outro módulo de pouso.

Por que essa notícia importa agora

Mais do que um atraso de cronograma, o relatório toca no coração da nova corrida lunar. O retorno de seres humanos à Lua não depende só de foguetes poderosos ou anúncios ambiciosos. Depende de resolver, na prática, problemas que ainda não foram vencidos nessa escala.

A Starship continua sendo peça central do plano estadunidense. Mas o alerta do inspetor-geral mostra que a missão de voltar à Lua está menos ligada a um único lançamento espetacular e mais a uma cadeia delicada de operações orbitais que ainda precisam provar que funcionam.

O relatório mostra que o próximo grande salto lunar pode ser decidido muito antes do pouso, ainda na órbita da Terra, onde combustível, tempo e tecnologia terão de funcionar em perfeita sintonia.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.