Descoberta pode obrigar astrônomos a redefinir o que é “lua”

Exoplaneta “balança” e sugere exolua com 40% de Júpiter

exolua
Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução

Astrônomos identificaram um “vai e vem” sutil no movimento de HD 206893 B, um gigante gasoso a cerca de 133 anos-luz da Terra, e isso pode indicar a presença de uma exolua fora de escala. Segundo nova pesquisa, o sinal tem período de cerca de 9 meses e tamanho comparável à distância entre a Terra e a Lua. Se a hipótese se confirmar, a suposta exolua teria por volta de 40% da massa de Júpiter, um valor que pode forçar a ciência a repensar onde termina uma lua e começa outra categoria de objeto.

Como foi feito

A equipe investigou o sistema usando o instrumento GRAVITY, acoplado ao Very Large Telescope (VLT) no deserto do Atacama, no norte do Chile.

O GRAVITY permitiu aplicar astrometria, técnica que mede com precisão a posição de estrelas e outros corpos ao longo do tempo para detectar desvios minúsculos no movimento, causados pelo “puxão” gravitacional de um objeto não visto diretamente.

De acordo com Quentin Kral, astrônomo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e líder do estudo, essa abordagem já havia sido usada para medir órbitas longas e lentas de exoplanetas massivos e anãs marrons, com observações espaçadas por anos.

No estudo atual, segundo o Space.com, o grupo levou a técnica além ao monitorar o objeto em escalas de dias a meses, buscando assinaturas muito mais rápidas.

O que foi encontrado

O alvo é HD 206893 B, descrito como um gigante gasoso com 28 vezes a massa de Júpiter. O que chamou atenção foi que o planeta não segue apenas uma órbita “suave” em torno da estrela, ele apresenta um pequeno, mas mensurável, “balanço” para frente e para trás.

Segundo Kral, o balanço tem período de cerca de 9 meses. Esse é o tipo de sinal que se espera quando um corpo está sendo “puxado” por um companheiro invisível, como uma lua grande, tornando o sistema um candidato particularmente interessante para hospedar uma exolua.

A órbita desse possível companheiro seria inclinada em torno de 60 graus em relação ao plano orbital do planeta, o que pode sugerir que alguma interação perturbou o sistema em algum momento de sua história.

Por que isso importa

Se confirmada, a característica mais marcante dessa possível exolua é a massa. Ela poderia algo equivalente a cerca de 9 vezes a massa de Netuno. Isso colocaria o objeto muito além de qualquer lua conhecida no Sistema Solar, e abriria uma discussão conceitual: ainda é uma “lua” quando a massa começa a rivalizar com a de planetas?

Kral compara com a maior lua do Sistema Solar, Ganimedes, e afirma que ela é extremamente pequena. Ele ressalta que Ganimedes é milhares de vezes menos massiva do que Netuno, indicando uma lacuna enorme entre as maiores luas conhecidas e este candidato.

Por ora, não existe hoje uma definição oficial de exolua. Na prática, astrônomos costumam chamar de lua qualquer objeto que orbite um planeta ou um companheiro subestelar. Em massas tão altas, porém, a diferença entre uma lua muito grande e um companheiro de baixa massa fica mais difusa.

Por que exoluas são tão difíceis de detectar

Possíveis detecções de exoluas já foram feitas antes, mas sempre cercadas de controvérsia. Segundo Kral, isso ocorre porque os sinais produzidos por luas são extremamente pequenos em comparação aos de planetas e dependem fortemente tanto da técnica de observação quanto da geometria do sistema.

A forma mais bem sucedida de encontrar exoplanetas até hoje é o método de trânsito, que mede a queda de brilho quando um planeta passa na frente de sua estrela. Em princípio, esse método poderia detectar luas comparáveis às maiores luas de Júpiter, mas é mais sensível a planetas muito próximos de suas estrelas. Estudos teóricos sugerem que, nesses casos, planetas “colados” à estrela têm menos chance de manter luas grandes por longos períodos.

Já a astrometria, a técnica usada nesta pesquisa, é sensível a luas de período mais longo orbitando planetas ou companheiros subestelares mais distantes de suas estrelas. Ou seja, a torna promissora para buscar exoluas onde elas seriam mais estáveis, isso ao menos as mais massivas, que tendem a ser as primeiras a aparecer nas detecções.

Próximos passos

A equipe espera que este candidato possa se tornar a 1ª exolua oficialmente confirmada, e também vê a abordagem como um “mapa” para futuras buscas em outros sistemas.

Kral afirma que é provável que estejamos vendo apenas a “ponta do iceberg”, e que, conforme as técnicas melhorem, as definições e o entendimento do que constitui uma lua devem evoluir.

O estudo está disponível como artigo pré revisado por pares no repositório arXiv e foi aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.