Cientistas querem perseguir cometa interestelar 3I/ATLAS
Missão extrema pode correr atrás do 3I/ATLAS por 35 anos

Um grupo de pesquisadores quer fazer o que hoje parece quase improvável: enviar uma espaçonave para perseguir o cometa interestelar 3I/ATLAS para fora do Sistema Solar. A proposta mira um encontro rápido com um dos objetos mais raros já detectados, mas exigiria uma arquitetura de missão agressiva, uma passagem extremamente próxima do Sol e uma espera de décadas até o possível encontro.
O interesse em torno do 3I/ATLAS não é difícil de entender. Descoberto em 1º de julho de 2025 pelo telescópio de busca ATLAS, no Chile, quando estava a cerca de 675 milhões de km do Sol, o objeto logo revelou uma trajetória hiperbólica. Isso mostrou que ele não pertence ao nosso Sistema Solar: trata-se de um visitante interestelar, apenas o terceiro já encontrado.
Ao se aproximar do periélio, em outubro de 2025, o cometa aqueceu e ficou ativo, desenvolvendo coma e cauda de gás e poeira. Observações espectroscópicas também revelaram água, dióxido de carbono e cianeto, compostos típicos de cometas do Sistema Solar.
Por que o 3I/ATLAS desperta tanto interesse

Objetos interestelares são raros justamente porque cruzam nossa vizinhança cósmica de forma passageira. Eles aparecem, oferecem uma janela curta de observação e depois desaparecem de novo no espaço interestelar.
No caso do 3I/ATLAS, isso o transforma em um alvo científico altamente atraente. Como veio de outro sistema estelar, ele pode carregar informações sobre a composição e a história de ambientes planetários muito além do Sol.
É esse potencial que torna a proposta tão tentadora para os astrônomos. Estudar de perto um corpo assim seria uma oportunidade incomum de comparar materiais de outro sistema com aquilo que vemos nos cometas que nasceram aqui.
O problema é que o 3I/ATLAS não está apenas indo embora. Ele está indo embora muito rápido.
Um alvo veloz demais para uma missão convencional

Segundo a Sky At Night Magazine, o cometa está deixando o Sistema Solar a mais de 60 km/s, o equivalente a 216.000 km/h. Além disso, segue por uma trajetória retrógrada, isto é, em sentido oposto ao da órbita dos planetas.
Essa combinação praticamente elimina uma missão de encontro completo, como a realizada pela Rosetta com o cometa 67P, em 2014. Naquele caso, a espaçonave conseguiu igualar a velocidade do alvo e entrar em sua órbita. Com o 3I/ATLAS, isso é descrito como impossível.
Na prática, o máximo que poderia ser tentado seria um sobrevoo rápido. Nada de acompanhar o cometa de perto por muito tempo. Seria mais como cruzar o caminho dele por um instante.
Também não dá para simplesmente lançar uma sonda em linha reta para alcançá-lo. Quando o 3I/ATLAS foi descoberto, ele já estava dentro da órbita de Júpiter, e a janela de lançamento necessária para uma perseguição direta já havia passado.
A proposta: usar Júpiter e mergulhar rumo ao Sol
É aí que entra a ideia apresentada por Adam Hibberd, da Iniciativa para Estudos Interestelares, em Londres, em parceria com T Marshall Eubanks, da Space Initiatives Inc, nos EUA.
Os dois propõem uma missão baseada em uma chamada manobra de Oberth solar. Em termos simples, essa técnica aproveita o fato de que motores de foguete conseguem aumentar a velocidade de uma espaçonave com mais eficiência quando ela está mergulhada no poço gravitacional de um objeto muito massivo (neste caso, o Sol).
A lógica pode parecer contraintuitiva. Para ganhar o máximo de velocidade depois, a espaçonave teria primeiro de ser desacelerada. Por isso, o plano prevê lançar a sonda em direção a Júpiter. A partir dali, ela cairia rumo ao centro do Sistema Solar para fazer uma passagem extremamente próxima do Sol e, nesse momento, queimaria todo o combustível em um único impulso intenso.
É como usar a gravidade solar como um estilingue extremo, mas acionando os motores no ponto mais crítico da curva para extrair o máximo possível da física orbital.
O papel do software e da janela de lançamento
Hibberd desenvolveu um código chamado OITS (Software de Trajetória Interplanetária Ótima) para calcular uma trajetória que pudesse, ao menos em tese, tornar essa perseguição viável.
De acordo com os cálculos, a melhor janela de lançamento seria em 2035. A missão dependeria de um estágio superior Starship Block 3, da SpaeX, reabastecido em órbita baixa da Terra, uma capacidade que ainda não foi demonstrada.
Esse detalhe sozinho já mostra o tamanho da aposta. A proposta não depende apenas de uma trajetória ousada, mas também de tecnologia operacional que ainda precisaria ser comprovada na prática.
Uma aproximação do Sol no limite
Se a missão já parece extrema até aqui, a passagem pelo Sol leva o projeto a outro patamar. O plano exigiria que a sonda passasse a apenas 15 milhões de quilômetros da superfície solar.
O texto compara essa distância com a da Parker Solar Probe, informando que isso seria quatro vezes mais perto do que a sonda da NASA chegou em 2024. Uma aproximação desse tipo colocaria a espaçonave em um ambiente de calor severo, exigindo um escudo térmico avançado.
Não se trata apenas de suportar temperaturas altíssimas, mas de manter a nave funcional no momento mais importante de toda a missão: o instante em que teria de gastar todo o combustível no impulso decisivo.
Mesmo assim, a perseguição seria longa
Após essa manobra, a sonda seria acelerada para mais de 350 km/s, ou 1,26 milhão de km/h. É uma velocidade impressionante em qualquer contexto espacial.
Ainda assim, os pesquisadores destacam que nem isso bastaria para um encontro rápido. Mesmo com essa aceleração extrema, a espaçonave não alcançaria o 3I/ATLAS por pelo menos 35 anos.
Ou seja, é um projeto de longo alcance, pensado quase como uma aposta geracional.
O que essa ideia representa para a exploração espacial
A missão é, no limite, apenas “quase viável”. Os desafios são enormes, dos requisitos térmicos ao cronograma, passando pela propulsão, pela arquitetura de lançamento e pelo tempo de espera.
Ainda assim, a proposta chama atenção porque mostra até onde cientistas e engenheiros estão dispostos a ir para estudar um visitante interestelar. Em vez de aceitar que o 3I/ATLAS simplesmente está escapando, a ideia tenta redesenhar o problema com uma solução radical.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante do plano. Mesmo que uma missão ao 3I/ATLAS em si continue distante, a arquitetura pensada agora pode servir de base para futuras tentativas de visitar o próximo objeto interestelar descoberto.
Ou seja, a proposta não vale apenas por este cometa específico. Ela também funciona como ensaio conceitual para um novo tipo de missão: aquela capaz de reagir a visitantes raros e velozes vindos de fora do Sistema Solar.
Um alvo quase inalcançável, mas cientificamente irresistível
O 3I/ATLAS reúne tudo o que costuma despertar atenção na astronomia: raridade, velocidade, origem misteriosa e uma janela curta de oportunidade. É um objeto que veio de outra estrela, mostrou atividade cometária típica (com água, dióxido de carbono e cianeto) e já está partindo novamente para o escuro entre as estrelas.
Tentar alcançá-lo exigiria uma das missões mais ambiciosas já colocadas na mesa. A proposta mistura gravidade de Júpiter, mergulho extremo rumo ao Sol, tecnologia ainda não demonstrada e uma espera de décadas.
Parece exagerado. Mas é justamente esse exagero calculado que torna a ideia tão fascinante. Em um momento em que a astronomia começa a detectar mais visitantes interestelares, pensar em como chegar até eles pode deixar de ser ficção de engenharia e virar planejamento real.
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