Satélite “morrendo” pode dar close no asteroide Apophis em 2029

Startup australiana quer reaproveitar um satélite em fim de vida para observar de perto a passagem rara do asteroide

close Apophis
Imagem: ESA/Reprodução

Um satélite geoestacionário prestes a “se aposentar” pode ganhar uma última missão de alto impacto científico. A empresa australiana HEO Robotics propõe comprar um satélite no fim da vida útil e usá-lo para sobrevoar o asteroide Apophis durante sua aproximação recorde à Terra, em 13 de abril de 2029. A ideia se soma a missões da NASA, ESA e Japão que transformarão esse encontro em um laboratório natural para entender como a gravidade da Terra pode remodelar um asteroide.

Satélite “aposentado” com missão final em Apophis

A HEO Robotics, sediada em Sydney, na Austrália, trabalha hoje com imagens de satélite para satélite em órbita baixa da Terra. Agora, a empresa quer dar um passo além. O plano é comprar um satélite comercial que opera na órbita geoestacionária e que estaria perto do fim de sua missão, usando o combustível restante para levá-lo a um encontro próximo com Apophis em 2029.

Satélites em órbita geoestacionária ficam a cerca de 35.786 km acima do equador terrestre e giram ao mesmo ritmo que a Terra. Para um observador no solo, parecem parados no céu, o que é ideal para telecomunicações e TV. Quando chegam ao fim da vida útil, esses satélites normalmente usam o último combustível para subir a uma “órbita cemitério”, um pouco acima da faixa operacional, reduzindo o risco de colisões.

A proposta da HEO é usar um pouco mais de combustível do que o necessário para essa órbita cemitério e, em vez de apenas afastar o satélite, guiá-lo a uma trajetória que o coloque perto de Apophis. O asteroide passará dentro da região ocupada por satélites geoestacionários na sexta-feira, 13 de abril de 2029, chegando a menos de 32.000 km da superfície da Terra.

“Nem é o asteroide mais fácil de visitar”, comentou Will Crowe, cofundador e diretor-executivo da HEO, em entrevista ao site Space.com durante o Congresso Astronáutico Internacional realizado em Sydney no início de outubro. Para ele, o que faltava era imaginação no uso de satélites já existentes e de suas órbitas.

Crowe afirma que Apophis é apenas o começo. Segundo ele, a HEO quer mirar primeiro em objetos que cruzam o sistema Terra-Lua. Depois, a ambição é chegar ao cinturão de asteroides e a outras classes “estranhas” de asteroides, fornecendo imagens sob demanda em diferentes regiões do Sistema Solar.

Apophis: de ameaça de impacto a laboratório natural

New radar observations of Apophis rule out future impact pillars
Observações de radar de Apophis obtidas em março de 2021.

O asteroide Apophis, oficialmente designado (99942) Apophis, foi descoberto em 19 de junho de 2004 no Observatório de Kitt Peak, nos Estados Unidos. Com cerca de 375 m de diâmetro, ele se tornou rapidamente um dos objetos potencialmente perigosos mais preocupantes já identificados. As primeiras estimativas de órbita sugeriam uma chance de impacto em 2029, 2036 ou 2068. Em determinado momento, o risco chegou a 2,7% para 2029, o que rendeu ao objeto a maior pontuação já registrada na escala de Torino, usada para avaliar o perigo de asteroides para a Terra.

Uma colisão teria consequências devastadoras em escala regional, fato que contribuiu para o nome escolhido. “Apophis” é inspirado no deus egípcio do caos e da destruição. Com novas observações ao longo dos anos, astrônomos conseguiram descartar a possibilidade de impacto em 2029 e 2036. Restou por algum tempo uma pequena chance de colisão em 2068.

Essa incerteza foi eliminada em março de 2021, quando observações de radar feitas pelo complexo Goldstone, na Califórnia, e pelo observatório de Green Bank, na Virgínia Ocidental, ambos nos EUA, refinaram a órbita de Apophis. Os dados permitiram descartar qualquer impacto com a Terra por pelo menos 100 anos. O asteroide foi removido em 26 de março de 2021 da “Lista de Risco” mantida pelo Escritório de Defesa Planetária da ESA.

Hoje, o foco em Apophis é científico. Segundo as agências espaciais, a passagem de 13 de abril de 2029 será a aproximação mais próxima de que temos conhecimento para um asteroide desse porte. O objeto chegará a menos de 32.000 km da superfície da Terra e, por um curto período, ficará mais perto de nós do que satélites em órbita geoestacionária. Em partes da Europa, África e Ásia, Apophis deverá ser visível a olho nu no céu noturno.

Como a gravidade da Terra vai “mexer” com Apophis

Apophis orbit diverted by Earth s gravity article
O desvio na órbita de Apophis durante sua aproximação da Terra

Durante a aproximação de 2029, Apophis será fortemente afetado pela gravidade terrestre. O lado do asteroide mais próximo da Terra sentirá uma atração maior do que o lado oposto. Essa diferença gera forças de maré, semelhantes às que o Sol e a Lua produzem sobre os oceanos terrestres, mas atuando na rocha.

Modelos citados pelas agências indicam que essas forças podem alongar e comprimir o asteroide, desencadear tremores internos e até provocar deslizamentos de material em sua superfície. A rotação de Apophis também pode ser alterada. É como se a Terra “apertasse” o asteroide ao passar, expondo camadas que normalmente ficariam escondidas sob a superfície.

A órbita de Apophis ao redor do Sol também vai mudar. Atualmente, ele pertence ao grupo de asteroides Atens, cujas órbitas cruzam a da Terra e têm extensão total menor do que a órbita terrestre. Depois da passagem de 2029, os cálculos indicam que Apophis migrará para o grupo Apollo, composto por asteroides que também cruzam a órbita da Terra, mas com órbitas mais amplas em torno do Sol.

Esse “empurrão” gravitacional faz do encontro de 2029 um experimento natural raro. Estimativas citadas nos materiais indicam que um asteroide do porte de Apophis passa tão perto da Terra, em média, apenas 1 vez a cada 7.500 anos.

Missões internacionais para seguir cada detalhe

A HEO não será a única a acompanhar Apophis de perto. Diversas missões estão sendo preparadas para observar o asteroide antes, durante e depois da aproximação de 2029.

A ESA desenvolve a missão Rapid Apophis Mission for Space Safety, ou Ramses, que pretende encontrar Apophis e “escoltar” o asteroide durante o sobrevoo pela Terra. O objetivo é documentar em detalhes como a gravidade terrestre deforma e transforma o objeto. A missão deve reutilizar boa parte da tecnologia, das equipes e da experiência acumulada com a missão Hera, o que reduz tempo de desenvolvimento e custos.

Assim como Hera, Ramses deve levar 2 CubeSats. Esses pequenos satélites serão liberados na vizinhança de Apophis e carregarão seus próprios instrumentos científicos, aumentando a quantidade de pontos de vista e medições disponíveis.

A NASA, por sua vez, está redirecionando uma missão já existente. A espaçonave OSIRIS-REx, que coletou amostras do asteroide Bennu, foi renomeada OSIRIS-APEX para seguir em direção a Apophis. De acordo com o plano descrito, ela chegará ao asteroide pouco depois da máxima aproximação com a Terra. A sonda deve se aproximar da superfície, disparar seus motores e levantar poeira e pedregulhos soltos. Isso permitirá aos cientistas analisar o material logo abaixo da camada mais externa.

Como OSIRIS-APEX chegará após o encontro com a Terra, suas observações complementam a visão de Ramses. Juntas, as missões podem produzir um “antes e depois” detalhado dos efeitos da passagem de Apophis.

A agência espacial japonesa também tem a missão DESTINY+ e menciona que uma sonda chinesa pode se somar ao esforço. No total, o sobrevoo de 2029 tem potencial para ser acompanhado por várias espaçonaves, além de telescópios em solo ao redor do mundo.

Estima-se que até 2 bilhões de pessoas possam observar o fenômeno a olho nu em diferentes regiões do planeta.

Defesa planetária e novo mercado de imagens espaciais

Embora Apophis não ofereça risco de impacto na passagem de 2029, o asteroide é um excelente “campo de testes” para a defesa planetária. Ao planejar e executar missões que encontrem Apophis em alta velocidade e em uma janela de tempo apertada, as agências espaciais praticam operações que seriam essenciais em um cenário real de ameaça.

A ESA coordena o Space Mission Planning Advisory Group, ou SMPAG, um fórum internacional que reúne agências espaciais para discutir e organizar respostas baseadas em espaçonaves a asteroides potencialmente perigosos. Missões como Ramses se encaixam nessa lógica de treinamento em escala real, ainda que o alvo desta vez seja inofensivo.

O encontro de 2029 também marca um possível ponto de virada para empresas como a HEO Robotics. Ao demonstrar que é possível reaproveitar satélites comerciais em fim de vida para missões científicas, a empresa tenta abrir um novo nicho. Em vez de focar apenas em imagens da Terra, a ideia é oferecer um “serviço de câmera” para o Sistema Solar, usando plataformas já em órbita para observar asteroides e outros alvos distantes.

Segundo o próprio Crowe da Heo, Apophis nem é o alvo mais simples disponível. O interesse está em mostrar que, com um pouco de criatividade orbital, a infraestrutura atual de satélites pode ser reaproveitada para apoiar a exploração científica, sem depender apenas de grandes missões dedicadas.

Para a comunidade científica, a combinação de missões governamentais e iniciativas privadas amplia o conjunto de dados. Com mais olhos apontados para Apophis durante a passagem de 2029, aumenta a chance de entender detalhes finos da resposta de um asteroide a forças gravitacionais intensas. Essas informações são fundamentais para prever o comportamento de objetos que um dia possam representar uma ameaça real.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.