Março é a hora de ver um brilho raro no céu

Fenômeno raro cria “pirâmide de luz” no céu e dá show sem telescópio

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Imagem: ESO

Março é um dos melhores momentos do ano para observar a luz zodiacal, um brilho difuso que surge no hemisfério sul durante o amanhecer no horizonte leste (lado do nascer do sol) e pode parecer uma “falsa alvorada”. O fenômeno fica mais visível nos dias próximos do equinócio de outono, principalmente em céus escuros (longe das grandes cidades) e sem a interferência da Lua, porque a geometria da eclíptica favorece a observação dessa faixa de poeira iluminada pelo Sol.

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A luz zodiacal também pode ser vista no Brasil em setembro, próximo do equinócio de primavera, porém, erguendo-se no horizonte oeste (lado do pôr do sol) poucos instantes após o anoitecer.

O fenômeno é uma forma rara de observar, a olho nu, a luz solar refletida por poeira espalhada no plano do Sistema Solar.

Março abre janela para ver uma luz estranha no céu

Quem olhar para o horizonte leste poucas horas antes do amanhecer pode ter a sensação de estar vendo um brilho fora do lugar. Não é poluição luminosa distante, nem os primeiros sinais da alvorada. Trata-se da luz zodiacal, um fenômeno sutil, mas marcante, que costuma aparecer como uma coluna pálida ou uma pirâmide leitosa saindo do horizonte.

É um fenômeno discreto, que exige atenção e boas condições de observação. Mas justamente por isso ele costuma causar surpresa. Muita gente já pode ter visto a luz zodiacal sem perceber o que era, confundindo-a com a claridade do amanhecer ou com a luz de uma cidade no horizonte.

O que é a luz zodiacal

A luz zodiacal aparece quando a luz solar reflete em grãos de poeira concentrados ao longo da eclíptica, o plano do Sistema Solar onde orbitam os planetas. É a mesma faixa celeste por onde o Sol, a Lua e os planetas parecem se mover vistos da Terra.

Essas partículas são minúsculas. Elas podem variar de tamanhos próximos a milímetros até escalas microscópicas. Esses fragmentos são atribuídos, em geral, a detritos deixados por cometas errantes ou produzidos em colisões entre asteroides. Porém, um estudo de 2021, baseado em dados da sonda Juno, da NASA, também sugere que Marte pode ser a verdadeira origem dessa poeira.

Por que março favorece a observação

A melhor época para ver a luz zodiacal depende do hemisfério e do horário da observação. No Hemisfério Norte, ela fica mais fácil de observar depois do pôr do sol nas noites em torno do equinócio de primavera (em março). Já antes do amanhecer, a melhor temporada ocorre perto do equinócio de outono (em setembro).

Por outro lado, a lógica muda no Hemisfério Sul, onde fica boa parte do Brasil. Aqui, nesse período, a melhor visualização tende a acontecer antes do amanhecer, voltada para o leste, em março; e durante o anoitecer, no oeste, em setembro.

O motivo é geométrico. Nessas épocas do ano, a eclíptica fica em um ângulo mais acentuado em relação ao horizonte. Isso faz a faixa de poeira refletindo a luz do Sol “subir” mais no céu do ponto de vista do observador, destacando-se melhor contra o fundo escuro.

O papel decisivo da Lua neste mês

Outro fator que ajuda bastante em março é a fase da Lua. Isso porque a Lua entrou na fase Minguante, nesta quarta-feira (11), e entre na fase Nova, a partir de 18 de março, muito próximo do equinócio, no dia 20.

Isso cria uma janela favorável para caçar a luz zodiacal. Como o fenômeno é delicado e relativamente fraco, qualquer luz extra no céu pode atrapalhar. Assim, a claridade lunar funciona quase como uma lanterna acesa em uma sala onde se tenta enxergar um brilho fraco.

Portanto, as melhores chances vêm nas madrugadas sem Lua, principalmente nas semanas em torno da Lua nova.

Em outras palavras, março reúne dois trunfos ao mesmo tempo: a geometria favorável da eclíptica e um período com pouca interferência da Lua.

Como observar a luz zodiacal

A boa notícia é que não é preciso telescópio nem binóculo. A má notícia é que isso não significa que será fácil. A observação da luz zodiacal depende mais do céu do que do equipamento.

O primeiro requisito é fugir da iluminação de grandes cidades. Infelizmente, não há chance real de ver o fenômeno em céus urbanos. É preciso estar em cidades do interior ou área rural, em um local escuro, onde as luzes artificiais não apaguem os brilhos naturais do céu.

Depois disso, a orientação é olhar para o leste antes do nascer do sol. O ideal é acordar poucas horas antes do nascer do sol e dar tempo para os olhos se adaptarem à escuridão. A recomendação é esperar pelo menos 20 minutos de adaptação visual.

Se as condições ajudarem, o observador poderá notar uma espécie de pirâmide pálida ou cone nebuloso subindo do horizonte.

Um detalhe interessante é que, diferente do crepúsculo ou alvorecer comum, a luz zodiacal não tem tons rosados. O tom avermelhado vem da atmosfera terrestre. A luz zodiacal, por sua vez, se origina fora dela.

Um brilho que muita gente já viu sem reconhecer

Um dos pontos mais interessantes do fenômeno é a ideia de que muitas pessoas já podem ter cruzado com a luz zodiacal sem saber o que estavam vendo. Ela não é exatamente impossível de ver. O problema é que costuma passar despercebida ou ser mal interpretada.

Depois que alguém a reconhece uma vez, fica mais fácil identificá-la de novo. É um daqueles fenômenos do céu que dependem não só da visibilidade, mas também da alfabetização do olhar.

De onde vem esse nome

O nome “luz zodiacal” tem relação direta com a faixa do céu chamada zodíaco. As civilizações antigas chamavam assim o caminho do Sol e da Lua no céu, em referência às constelações vistas ao fundo desse trajeto.

Como a poeira responsável pelo brilho está distribuída no mesmo disco achatado do Sistema Solar ocupado por Mercúrio, Vênus, Terra e Marte, a luz aparece alinhada a essa mesma região do céu. Daí o nome.

É um termo técnico, mas relativamente intuitivo quando explicado dessa maneira: é a luz associada ao plano do zodíaco, ou seja, ao caminho aparente dos principais corpos do Sistema Solar vistos da Terra.

O que esse brilho revela sobre o Sistema Solar

Mesmo parecendo apenas um efeito bonito no horizonte, a luz zodiacal aponta para algo maior. Ela é a manifestação visível de que o espaço entre os planetas não é completamente vazio. Há poeira ali, espalhada ao longo do plano do Sistema Solar, refletindo a luz do Sol.

Esse detalhe acrescenta profundidade à observação. O que o olho percebe como um cone pálido no céu é, na verdade, o reflexo de uma estrutura ampla e difusa, composta por material que pode ter vindo de cometas, colisões entre asteroides ou, segundo uma hipótese, de Marte.

Ou seja, não é apenas um belo fenômeno sazonal. É também um lembrete de que o Sistema Solar é um ambiente dinâmico, repleto de fragmentos e rastros materiais deixados por sua própria história.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.