James Webb mostra Urano com brilho nunca antes visto

Novas observações do telescópio espacial revelam auroras rosadas

O Telescópio Espacial James Webb registrou, em detalhes inéditos, o brilho rosado das auroras de Urano e desenhou um mapa 3D da região alta da atmosfera onde elas se formam. As medições, feitas em janeiro de 2025 e publicadas neste mês, ajudam a entender como o planeta distribui energia e como seu campo magnético “desalinhado” molda esse fenômeno.

Um planeta pouco visitado, mas importante

Urano costuma ficar fora do radar quando se fala em exploração do Sistema Solar. Até o momento, só uma espaçonave passou por ele (a Voyager 2) em um sobrevoo no fim de janeiro de 1986, e essa visita ocorreu logo após uma tempestade solar que “achatou” o campo magnético do planeta, limitando o que foi possível aprender.

Ainda assim, o gigante de gelo pode ser uma peça-chave para resolver quebra-cabeças sobre planetas. Isso porque Urano gira em movimento retrógrado, no sentido horário, e tem uma inclinação extrema do eixo, quase perpendicular à sua órbita. Em termos práticos, ele se comporta como um pião muito tombado que ainda por cima gira ao contrário. Essa geometria também está associada a estações duram 42 anos terrestres, e pode ter relação com um grande impacto no início da história do Sistema Solar.

O que o James Webb observou

Imagem: ESA
Imagem: ESA

As novas observações foram feitas por uma equipe internacional liderada por Paola Tiranti, doutoranda em ciência planetária da Universidade Northumbria, no Reino Unido. O trabalho foi publicado em Geophysical Research Letters.

O estudo usou o instrumento NIRSpec do James Webb, com a Integral Field Unit, para acompanhar Urano por 15 horas (quase uma rotação completa). O conjunto de dados mediu a temperatura e a densidade de partículas carregadas na ionosfera, uma região alta da atmosfera onde as auroras se formam e onde o gás interage com o vento solar e com o campo magnético do planeta.

A equipe detectou um brilho fraco vindo de moléculas acima das nuvens e usou esse sinal para mapear a estrutura vertical dessa camada.

O que foi encontrado

A pesquisa descreve o melhor retrato até agora de como a alta atmosfera de Urano varia com a altitude.

O estudo informa que a região analisada se estende até 5.000 km acima do topo das nuvens. As temperaturas atingem um pico entre 3.000 km e 4.000 km, enquanto as densidades de íons chegam ao máximo por volta de 1.000 km. Também foram observadas variações ao longo do planeta, associadas à geometria complexa do campo magnético.

Nas imagens, as auroras aparecem como manchas rosadas brilhantes que se projetam acima da borda visível da atmosfera. O James Webb também capturou anéis delicados e nuvens brilhantes perto da calota polar, mas a ênfase científica, segundo a avaliação apresentada, está no comportamento das auroras e no que elas revelam sobre o interior magnético do planeta.

“Vendo” em 3D

As medições rastreiam sinais de íons e de brilho na atmosfera alta para inferir como temperatura e densidade mudam com a altura.

A equipe também rastreou a abundância de H3+, um íon formado por 3 núcleos de hidrogênio, para compor um mapa tridimensional da parte superior da atmosfera. Paola Tiranti afirma que a sensibilidade do James Webb permite acompanhar como a energia sobe pela atmosfera e até ver a influência do campo magnético “desbalanceado”.

O papel do campo magnético “torto” de Urano

urano 2025
Imagem: ESA

Um ponto central do estudo é que o campo magnético do planeta é incomum. Isso porque ele é desalinhado em relação ao centro do planeta e ao eixo de rotação, e também é inclinado e deslocado, o que faz com que as auroras varram a atmosfera de modos complexos.

Foram detectadas duas faixas aurorais brilhantes perto dos polos magnéticos e uma região com “depleção” de emissão e de densidade de íons entre essas faixas, uma característica associada a transições em linhas de campo magnético. O estudo ainda compara esse tipo de região escurecida a algo observado em Júpiter.

Por que isso importa para o avanço da astronomia

A relevância vai além da imagem bonita. Mundos parecidos com Urano em tamanho e massa são comuns em sistemas planetários ao redor de outras estrelas, o que torna o gigante gelado uma referência importante para entender como planetas se formam e evoluem na Via Láctea.

Ao revelar a estrutura vertical da alta atmosfera e como a energia é distribuída, o James Webb dá um passo concreto para caracterizar gigantes gasosos e gigantes de gelo fora do Sistema Solar.

Além disso, as auroras funcionam como uma janela para o campo magnético. Heidi Hammel, cientista interdisciplinar do James Webb na Associação de Universidades para Pesquisa em Astronomia, nos EUA, afirma que essas detecções são importantes porque são uma manifestação direta do campo magnético interno. Ela ressalta que, sem uma nave no local, não há outra forma de sondar esse campo remotamente.

O que vem pela frente

Astrônomos nos EUA ainda esperam enviar outra missão a Urano nos próximos anos, mas orçamentos apertados e a janela de tempo necessária para uma viagem interplanetária energeticamente eficiente podem empurrar essa missão para mais adiante.

Até lá, o James Webb segue como a principal ferramenta para observar, à distância, a dinâmica da atmosfera superior do planeta.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.