Estudo acende alerta sobre coagulação em astronautas mulheres

Pesquisa sugere que o sangue pode formar coágulos mais rápidos e mais estáveis em astronautas, um risco para missões longas à Lua e a Marte.

Astronauta Christina Koch, da NASA.
Astronauta Christina Koch, da NASA, que voará na missão Artemis 2. Imagem: NASA

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Simon Fraser, no Canadá, em parceria com a Agência Espacial Europeia, investigou como a microgravidade afeta a coagulação sanguínea em mulheres. Os resultados indicam um possível aumento do risco de coágulos mais difíceis de dissolver, um ponto sensível para futuras missões espaciais longas, longe de atendimento médico imediato.

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Risco para astronautas mulheres no espaço

Passar muito tempo em microgravidade já é conhecido por afetar músculos, ossos, sistema cardiovascular, sistema endócrino e sistema nervoso. Mas, para astronautas mulheres, a nova pesquisa sugere que existe mais um ponto de atenção: o risco de formação de coágulos sanguíneos potencialmente perigosos.

O trabalho, publicado na Acta Astronautica analisou como a microgravidade pode alterar a coagulação do sangue em mulheres e reforça um problema importante da medicina espacial atual: boa parte do que se sabe sobre saúde humana no espaço ainda vem de estudos realizados majoritariamente com homens.

Um problema médico que muda de lugar no espaço

Na Terra, coágulos sanguíneos costumam ser associados ao envelhecimento, embora também possam afetar pessoas mais jovens. Em geral, eles tendem a se formar nas veias das pernas, onde podem bloquear o fluxo sanguíneo e causar dor e inchaço.

Em alguns casos, porém, esses coágulos podem se deslocar e chegar aos pulmões, provocando uma embolia pulmonar, ou contribuir para eventos graves, como infarto e AVC. Ainda assim, por surgirem com frequência nas pernas, existe mais tempo para procurar tratamento ou para o próprio organismo tentar dissolvê-los.

No espaço, o cenário muda.

Sem a gravidade da Terra puxando os fluidos do corpo para baixo, o sangue tende a se redistribuir. Ele pode se acumular na cabeça e, às vezes, também nos pés. Esse rearranjo cria condições em que coágulos podem se formar em regiões mais perigosas.

O ponto mais preocupante: a veia jugular

Uma das descobertas mais inquietantes destacadas no estudo é o local onde esses coágulos podem aparecer em microgravidade.

No espaço, os coágulos têm mais chance de se formar na veia jugular, no pescoço. Isso muda bastante o tamanho do risco. Se um coágulo se forma ali, ele está muito mais perto do coração e dos pulmões do que estaria se surgisse nas pernas.

Em declaração, Andrew Philip Blaber, da universidade canadense, resume a gravidade do quadro: “Descobrimos que, no espaço, coágulos têm mais probabilidade de se formar na veia jugular. De lá, não precisam viajar muito para alcançar os pulmões ou o coração e desencadear um evento médico grave. O espaço não é um lugar onde você quer que essas coisas aconteçam. Agora que sabem que isso pode ocorrer, eles estão procurando isso com mais frequência como parte das medidas padrão.

Ou seja, o risco não é apenas teórico. Ele interfere diretamente nos protocolos médicos a bordo de missões espaciais.

O caso de 2020 ajudou a mudar o foco

Os primeiros sinais de que astronautas mulheres poderiam enfrentar um risco maior de coagulação apareceram em 2020, quando uma astronauta na Estação Espacial Internacional (ISS) desenvolveu de forma inesperada um coágulo na veia jugular.

Esse episódio chamou a atenção porque mostrou que um problema vascular sério podia surgir em órbita, em uma região do corpo muito mais crítica do ponto de vista médico. Foi a partir desse alerta que o interesse por estudos mais específicos em mulheres ganhou força.

Como o estudo foi feito

Para investigar a questão, os pesquisadores reuniram 18 mulheres saudáveis em um teste de cinco dias de imersão seca.

Esse método usa uma espécie de banho de água com uma vedação impermeável que mantém a voluntária seca enquanto ela flutua. O objetivo é simular, aqui na Terra, alguns efeitos da ausência de peso. É uma forma de reproduzir parte do que o corpo experimenta em microgravidade sem sair do planeta.

Durante o experimento, a equipe avaliou as respostas de coagulação em tempo real com uma técnica chamada ROTEM (tromboelastometria rotacional). Trata-se de um teste rápido que mede como o sangue começa a coagular, com que velocidade esse processo avança e como esse coágulo se comporta.

Além disso, os pesquisadores também analisaram o sangue das participantes em busca de relação com hormônios menstruais. Segundo os autores da pesquisa, esses hormônios não tiveram efeito na coagulação sanguínea dentro do estudo.

O que os cientistas observaram

Os resultados trouxeram um padrão que, à primeira vista, pode parecer até contraditório.

O tempo para o sangue começar a coagular em microgravidade foi mais longo. Mas, depois que o processo se iniciava, a formação do coágulo ocorria mais rapidamente. E não só isso: os coágulos formados mostraram maior força e estabilidade do que o normalmente observado em pacientes na Terra.

Esse é o ponto central do estudo. O corpo das participantes demorava mais para “apertar o gatilho” da coagulação. Mas, uma vez iniciado o processo, o resultado final parecia mais robusto e potencialmente mais difícil de desfazer.

Blaber resumiu assim: “Sabemos que, na Terra, a coagulação em homens e mulheres pode variar com a idade, mas temos pouca informação sobre se isso será diferente no espaço. Nesse ambiente de microgravidade, descobrimos que as participantes levaram mais tempo para o sangue começar a coagular. Mas, quando a coagulação começou, ela ocorreu mais rápido e foi mais estável, tornando o coágulo mais difícil de quebrar.

O que significa “hipercoagulabilidade”

De acordo com o UniverseToday, os resultados identificaram a hipercoagulabilidade como um possível mecanismo-chave. Esse termo técnico pode ser entendido como uma tendência maior do sangue a formar coágulos.

É como se o sistema de coagulação ficasse mais “disposto” a consolidar rapidamente um tampão depois que o processo entra em ação. Em um ambiente hospitalar na Terra, isso já exigiria atenção. Em uma nave espacial, a muitos dias ou meses de qualquer atendimento emergencial, o tema ganha peso ainda maior.

Cinco dias não bastam para gerar alarme, mas bastam para preocupar

Os achados não foram considerados preocupantes após apenas cinco dias de experimento.

Ainda assim, os resultados levantam preocupações reais quando se pensa em missões de longa duração. Em voos até a Lua ou, principalmente, em jornadas até Marte, astronautas passarão meses em trânsito, distantes de hospitais, exames complexos e intervenções rápidas.

Nessas condições, um problema vascular que na Terra já seria sério pode se transformar em emergência crítica.

Por isso, o estudo não sugere pânico, mas sim algo mais útil do ponto de vista científico: um alerta fundamentado para que agências espaciais melhorem monitoramento, prevenção e protocolos médicos.

Por que esse estudo importa agora

Há uma dimensão estrutural importante nessa pesquisa: ela ajuda a corrigir um desequilíbrio histórico na medicina espacial.

Até hoje, a maioria dos estudos sobre saúde humana no espaço envolveu astronautas homens. Isso significa que parte do conhecimento acumulado sobre riscos fisiológicos pode não capturar com precisão respostas específicas do corpo feminino em microgravidade.

À medida que o número de astronautas mulheres cresce, esse tipo de lacuna deixa de ser um detalhe acadêmico e vira um problema prático. Missões futuras precisarão de protocolos médicos mais personalizados, baseados em evidências mais amplas.

O que já está sendo feito

Enquanto novas pesquisas avançam, algumas medidas já foram incorporadas.

Segundo a reportagem, as agências espaciais estão garantindo que astronautas a bordo da ISS façam regularmente ultrassons da veia jugular. Foi justamente esse tipo de exame que identificou acidentalmente o coágulo na astronauta em 2020.

Ou seja, o caso anterior já alterou a rotina médica no espaço, e o novo estudo ajuda a dar base para que esse acompanhamento continue e evolua.

O próximo passo da pesquisa

A equipe agora está analisando e comparando os resultados com estudos de imersão seca feitos com voluntários homens. Esse confronto deve ajudar a entender melhor o que é específico da fisiologia feminina e o que pode ser uma resposta geral do corpo humano à microgravidade.

Os pesquisadores também apontam que esses dados devem orientar monitoramento médico e procedimentos de tratamento para missões mais longas.

No fundo, o estudo fala menos sobre um detalhe isolado da biologia e mais sobre uma mudança de escala na exploração espacial. Enquanto voos curtos em órbita baixa permitem respostas relativamente rápidas a emergências, missões à Lua e a Marte exigem outro nível de preparação. O corpo humano deixa de ser apenas o passageiro da missão e vira uma variável central de risco.

E esse novo trabalho mostra que, quando o assunto é saúde no espaço, ainda há muito a descobrir, principalmente sobre diferenças que por muito tempo receberam atenção insuficiente.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.