Satélite da NASA cai do céu após 14 anos

Nave lançada em 2012 deve reentrar na atmosfera após revelar segredos do “escudo” da Terra

Imagem do par de satélites da missão Van Allen Probe.
Imagem do par de satélites da missão Van Allen Probe. Imagem: NASA

Um satélite da NASA que passou anos estudando uma das regiões mais hostis do entorno da Terra está encerrando sua jornada de forma definitiva. A Van Allen Probe A reentra na atmosfera terrestre quase 14 anos depois de seu lançamento, marcando o capítulo final de uma missão que ajudou cientistas a entender melhor como o espaço ao redor do planeta reage à atividade solar.

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A previsão divulgada pela NASA indica que a reentrada deve ter iniciado por volta de 20h45 (horário de Brasília) desta terça-feira (10), com uma incerteza de mais ou menos 24 horas. A estimativa, segundo a agência, foi feita pela Força Espacial dos EUA em 9 de março de 2026.

Embora a maior parte da espaçonave deva se desintegrar ao atravessar a atmosfera, a NASA afirma que alguns componentes devem sobreviver à reentrada. Ainda assim, o risco de ferimentos em alguém na Terra é considerado baixo: aproximadamente 1 em 4.200.

Uma missão criada para enfrentar uma região difícil do espaço

A Van Allen Probe A fazia parte de um par de espaçonaves lançado em 30 de agosto de 2012. Ao lado de sua gêmea, a Van Allen Probe B, ela foi enviada para estudar os cinturões de Van Allen, dois anéis de partículas carregadas presos ao redor da Terra pelo campo magnético do planeta.

Esses cinturões funcionam como uma espécie de escudo invisível. Eles ajudam a proteger a Terra contra radiação cósmica, tempestades solares e o vento solar, um fluxo contínuo de partículas vindas do Sol que pode ser prejudicial a seres humanos e capaz de danificar equipamentos tecnológicos.

Entender como essas regiões ganham e perdem partículas não é apenas uma curiosidade científica. Esse conhecimento tem impacto direto sobre a segurança de satélites, sistemas espaciais e previsões de clima espacial.

O “escudo” da Terra que a missão ajudou a decifrar

Os cinturões de Van Allen ficam ao redor do planeta como zonas energéticas dinâmicas. Embora possam ser imaginados como camadas estáveis, eles mudam em resposta à atividade solar e a outros processos espaciais.

A região é tão severa do ponto de vista de radiação que a maioria das espaçonaves e missões tripuladas tenta passar o menor tempo possível ali, justamente para evitar danos. As Van Allen Probes foram as primeiras espaçonaves projetadas especificamente para operar por muitos anos dentro desses cinturões e coletar dados científicos nesse ambiente extremo.

Isso por si só já tornou a missão singular. Em vez de apenas atravessar a região rapidamente, como ocorre em muitas missões, essas sondas foram desenhadas para viver ali e registrar suas transformações com profundidade.

Uma missão de dois anos que durou quase sete

Originalmente, a missão foi planejada para durar dois anos. Na prática, porém, as duas sondas operaram por quase sete anos, produzindo um volume de dados sem precedentes sobre os cinturões permanentes de radiação da Terra, que levam o nome do cientista James Van Allen.

A NASA encerrou a missão em 2019, quando as duas espaçonaves ficaram sem combustível e já não conseguiam mais se orientar corretamente em direção ao Sol.

Mesmo assim, o legado científico permaneceu. O comunicado da NASA destaca que os dados obtidos continuam sendo importantes para a compreensão do clima espacial e de seus efeitos sobre satélites, astronautas e até sistemas terrestres, como comunicações, navegação e redes elétricas.

Em outras palavras, embora a sonda deixe de existir como objeto em órbita, a missão continua “viva” nos bancos de dados e nas análises científicas.

Uma descoberta que mudou a visão dos cinturões

Entre os resultados mais marcantes da missão está a obtenção dos primeiros dados que mostraram a existência de um terceiro cinturão de radiação transitório.

Esse cinturão extra pode se formar em períodos de atividade solar intensa, o que revela que a estrutura dos cinturões ao redor da Terra não é tão simples nem tão estável quanto se imaginava. É como se a Terra, em vez de ter apenas duas “faixas” permanentes de partículas energéticas, pudesse temporariamente reorganizar esse sistema em resposta ao humor do Sol.

Esse tipo de descoberta ajuda a explicar por que o ambiente espacial próximo do nosso planeta é mais variável do que parece à primeira vista.

Por que a reentrada foi antecipada

Quando a missão terminou, em 2019, as análises indicavam que a Van Allen Probe A só reentraria na atmosfera em 2034. Mas esse cálculo acabou ficando desatualizado. A razão está no comportamento recente do Sol.

Segundo a NASA, aquelas estimativas foram feitas antes do atual ciclo solar, que se mostrou muito mais ativo do que o esperado. Em 2024, cientistas confirmaram que o Sol havia atingido seu máximo solar, fase de atividade intensa que desencadeia eventos mais fortes de clima espacial.

Essas condições aumentaram o arrasto atmosférico sobre a espaçonave além do previsto inicialmente. Em termos simples, a atmosfera terrestre “inflou” mais do que o esperado sob influência da atividade solar, aumentando o atrito sobre a nave e acelerando sua perda de altitude.

É um efeito importante porque mostra que o espaço próximo da Terra não é completamente vazio nem estático. Quando o Sol fica mais ativo, ele altera esse ambiente, e satélites ou espaçonaves em certas órbitas podem sentir esse impacto de forma concreta.

Por que essa missão ainda importa hoje

A relevância da Van Allen Probes vai além do feito técnico de operar numa região extrema do espaço. Seu valor duradouro está em como os dados obtidos ajudam a prever os efeitos da atividade solar sobre estruturas das quais dependemos diariamente.

Quando cientistas estudam os cinturões de radiação da Terra, eles não estão olhando apenas para um fenômeno distante ou abstrato. Eles estão investigando uma peça essencial do sistema que influencia o funcionamento de satélites, missões espaciais e tecnologias na superfície do planeta.

A própria NASA destaca que as observações dessas regiões dinâmicas contribuíram para melhorar previsões de eventos de clima espacial e de suas possíveis consequências. Isso inclui impactos sobre sistemas de comunicação, navegação e energia, áreas que fazem parte da infraestrutura cotidiana da vida moderna.

O fim de uma sonda, não de toda a missão

A reentrada iminente da Van Allen Probe A não encerra toda a história do programa. Sua sonda gêmea, a Van Allen Probe B, não deve reentrar antes de 2030, segundo a NASA.

Ou seja, embora uma das duas espaçonaves esteja prestes a desaparecer na atmosfera, o par ainda não terá se despedido completamente do espaço.

Há também um simbolismo forte nesse desfecho. A Van Allen Probe A ajudou a investigar justamente a relação entre o Sol, o campo magnético da Terra e os efeitos da radiação espacial. Agora, anos depois, é o próprio comportamento mais intenso do Sol que está acelerando sua queda.

Poucas missões encerram sua trajetória de maneira tão coerente com o tema que estudaram.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.