NASA lança missões para investigar o lado estranho da aurora boreal

Agência espacial quer entender as raras auroras negras

aurora boreal 1
Aurora boreal vista sobre a Islândia. Imagem: Unsplash

A NASA lançou duas missões com foguetes de sondagem para investigar a “fiação elétrica” por trás da aurora boreal. Uma delas, a BADASS, mira as misteriosas auroras negras, regiões escuras dentro do brilho da aurora onde os elétrons podem estar indo para o espaço em vez de descer rumo à atmosfera. A outra, a GNEISS, tenta montar uma espécie de tomografia das correntes elétricas em 3D, um passo importante para entender tempestades geomagnéticas que afetam satélites e astronautas.

Como foi feito

As duas missões utilizaram foguetes suborbitais, que atravessam a atmosfera por um curto período para coletar dados e depois retornam à Terra. Os lançamentos ocorreram no Poker Flat Research Range, uma base no Alasca, nos EUA, usada para pesquisas na alta atmosfera, com o alvo sendo a própria aurora boreal.

A BADASS (sigla em inglês para “Pesquisador Científico de Auroras Negras e Difusas”), decolou na madrugada do último dia 9 de fevereiro. O foguete atingiu 360 km de altitude antes de cair de volta. Segundo Marilia Samara, investigadora principal da missão, tudo ocorreu como planejado e os instrumentos científicos funcionaram como esperado, devolvendo dados de alta qualidade para estudar as auroras negras e o que causa a inversão do fluxo de elétrons.

badass sounding rocket craig heinselman
Fotografia de longa exposição da missão BADASS. Imagem: NASA

Já a missão GNEISS (“Ciência Geofísica de Sistemas Ionosféricos em Não Equilíbrio”) fez 2 lançamentos em sequência em 10 de fevereiro de 2026. Os foguetes chegaram a altitudes máximas de 319 km. Os lançamentos também seguiram o plano e coletaram dados que a NASA vai usar para investigar o “funcionamento interno” das auroras.

gneiss sounding rocket teik araya 1
Fotografia de longa exposição da missão GNEISS. Imagem: NASA

O que foi encontrado

O objetivo central da GNEISS é reconstruir como as correntes elétricas se distribuem dentro de uma aurora, incluindo o caminho de retorno dos elétrons que completa o “circuito” do fenômeno. Na prática, quando a aurora “acende”, é porque elétrons fluem do espaço para a atmosfera, como a eletricidade em um fio que acende uma lâmpada. Só que a eletricidade não para no ponto onde a luz aparece na lâmpada. Ela faz parte de um circuito em loop, com fluxo de ida e de volta.

No caso das auroras, o feixe de elétrons que chega pode ser relativamente organizado, como um cabo. Já o retorno não é tão “arrumado”. Depois de produzir o brilho, os elétrons se espalham em direções imprevisíveis, influenciados por colisões, ventos divergentes, gradientes de pressão e campos elétricos e magnéticos transitórios. Eles acabam encontrando caminhos para completar o circuito, mas de forma sinuosa e variável.

É aí que entra a pesquisa proposta pela GNEISS. Com dois foguetes e uma rede de receptores no solo, a missão busca construir uma visão 3D do ambiente elétrico de uma aurora. “Não estamos interessados apenas em onde o foguete voa. Queremos saber como a corrente se espalha para baixo pela atmosfera”, disse Kristina Lynch, investigadora principal da GNEISS.

A missão usa 2 foguetes voando lado a lado pela mesma aurora, como se atravessassem “fatias” diferentes do mesmo sistema. Dentro da aurora, cada foguete ejeta 4 subcargas que medem regiões distintas. Durante o voo, os foguetes enviam sinais de rádio que atravessam o plasma ao redor. O plasma altera essas ondas de rádio no caminho até os receptores no solo, de modo análogo a como tecidos do corpo alteram feixes em uma tomografia. A equipe usa esses sinais para inferir a densidade do plasma, o que indica por onde a eletricidade pode fluir.

Em paralelo, a BADASS foca nas auroras negras. Elas podem marcar regiões onde os elétrons, em vez de descer rumo à atmosfera, disparam para cima, em direção ao espaço, e onde as correntes podem inverter a direção de forma abrupta.

Por que isso importa

A pesquisa da NASA liga o estudo das auroras à segurança e à confiabilidade de tecnologia espacial e terrestre. Auroras estão associadas a tempestades geomagnéticas, que podem causar problemas técnicos em satélites e também representar risco para astronautas. Na Terra, essas tempestades podem levar a apagões, desviar rotas de voos e interferir em transmissões de rádio.

Entender o “fechamento do circuito” das auroras é mais do que preencher uma lacuna de física. As correntes elétricas moldam como a energia vinda do espaço se espalha pela alta atmosfera. Onde a corrente se abre em leque, a atmosfera aquece, ventos se intensificam e satélites podem atravessar uma camada de ar mais turbulenta do que o esperado, o que altera o arrasto atmosférico e as condições operacionais.

Além disso, cientistas estudam essa região com observações feitas do solo há muito tempo, e que uma peça complementar vem do espaço: a missão de satélite EZIE, da NASA, lançada em março de 2025, mede correntes elétricas aurorais de cima. A combinação de medições por satélite com dados coletados diretamente dentro da aurora por foguetes oferece uma chance rara de “olhar por dentro” do sistema.

“Se conseguirmos juntar as medições in situ com as imagens do solo, então podemos aprender a ler a aurora”, disse Lynch.


Quer notícias do espaço no seu WhatsApp?

Entre no canal do Futuro Astrônomo e receba em primeira mão as matérias, as melhores imagens, e alertas de eventos no céu. Conteúdo curto, link direto, sem enrolação. Tudo 100% grátis, sem notificações excessivas. Siga aqui!

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.