Europa dá sinal verde para missão que vai interceptar asteroide Apophis

ESA fechou contratos e destravou construção da missão Ramses, que deve chegar ao asteroide antes da passagem de 2029.

ESA Ramses Apophis
Imagem: ESA

A ESA (Agência Espacial Europeia) assinou na última terça-feira (10) um contrato para desenvolver a missão Ramses, que vai se encontrar com o asteroide Apophis antes de sua próxima (e segura) passagem pela Terra, em 13 abril de 2029. Com lançamento previsto para o 1º semestre de 2028, a sonda deve observar como o corpo reage à gravidade do nosso planeta, um “experimento natural” que pode refinar estratégias de defesa planetária.

O que foi decidido

A ESA anunciou a assinatura de um contrato com a OHB Italia para desenvolver a “Rapid Apophis Mission for Space Safety” (ou “Ramses”), dando início à fase de construção, montagem e testes do sistema. O acordo tem valor de € 81,2 milhões (cerca de R$ 501 milhões) e foi firmado no centro tecnológico ESTEC, na Holanda.

Segundo a ESA, essa etapa se soma a um contrato anterior, de 2024, voltado ao trabalho preparatório, e eleva o valor total do projeto para aproximadamente € 150 milhões (R$ 925 milhões). A missão, diz a agência, foi planejada para aproveitar uma oportunidade rara de observação: acompanhar de perto a aproximação do Apophis enquanto ele passa pela Terra.

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Assinatura do contrato de Ramsés em 10 de fevereiro de 2026. Imagem: ESA

Como foi feito

A Ramses foi desenhada para fazer um rendezvous com o asteroide (99942) Apophis, chegando antes do sobrevoo de de 2029. O objetivo é estar ao lado do corpo durante a interação gravitacional com a Terra, registrando mudanças no seu comportamento físico.

Uma forma simples de entender o que a missão busca é pensar no Apophis como um brinquedo pião no espaço. Quando ele passa perto de um “peso” grande como a Terra, a força gravitacional pode mexer na rotação, na orientação e até na forma como as camadas internas se acomodam. É esse tipo de resposta que cientistas querem medir com precisão.

A ESA afirma que a revisão crítica de projeto foi concluída no último dia 6 de fevereiro e confirmou que o desenho detalhado da espaçonave atende aos requisitos técnicos, científicos e programáticos. Com essa validação, o time agora segue para a integração de hardware, incluindo a estrutura principal da nave e instrumentos de carga útil, ao longo do próximo ano. Depois, a missão passa por testes ambientais e funcionais para chegar pronta à janela de lançamento em 2028.

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Asteroide do Juízo Final

O Apophis, apelidado inicialmente de “Asteroide do Juízo Final”, tem cerca de 375 metros e deve passar a aproximadamente 32 mil km do nosso planeta, a menos de 10% da distância média entre a Terra e a Lua. Esse nível de proximidade, sem risco, é o que torna o encontro um caso especial para ciência e para planejamento de proteção do planeta.

Além da nave principal, a Ramses levará 2 CubeSats “implantáveis” desenvolvidos pela indústria europeia, com a proposta de ampliar o alcance científico após a chegada ao asteroide.

Um deles terá construção liderada pela empresa italiana Tyvak International. O CubeSat se chama Farinella, em homenagem ao cientista planetário italiano Paolo Farinella. A ESA diz ter assinado um segundo contrato, de € 8,2 milhões (R$ 50,6 milhões), para essa construção, também baseado em um acordo preparatório anterior de € 4,7 milhões (R$ 29 milhões).

A missão também inclui colaboração com a agência japonesa JAXA. De acordo com a ESA, a contribuição japonesa envolve componentes da espaçonave, como painéis solares e um imageador térmico no infravermelho, além da possibilidade de um lançamento compartilhado com a missão Destiny+. Pesquisadores do Japão também devem participar das atividades científicas da Ramses.

Por que isso importa

A ESA enquadra a Ramses como uma missão de segurança espacial e defesa planetária, porque as medições feitas no Apophis podem melhorar o entendimento sobre como asteroides próximos da Terra se comportam quando submetidos a forças externas.

Em termos práticos, isso significa reduzir incertezas sobre como objetos desse tipo podem mudar de rotação e estrutura em encontros gravitacionais, um conhecimento considerado crítico para estratégias futuras contra asteroides potencialmente perigosos.

A agência também enfatiza o ganho de capacidade industrial e técnica na Europa. O comunicado da ESA afirma que a Ramses aproveita a experiência acumulada durante a construção da primeira missão europeia de defesa planetária, Hera, que deve chegar ao sistema binário de asteroides Didymos ainda este ano. A lógica é usar essa herança de engenharia para acelerar uma missão com cronograma apertado e alta complexidade.

Declarações

“Com a Ramses, a ESA está aproveitando uma oportunidade única na vida para estudar o asteroide Apophis enquanto ele passa pela Terra, aprofundando nosso entendimento sobre objetos próximos da Terra e avançando nossas capacidades de proteger o planeta”, afirmou Orson Sutherland, líder do grupo de projetos Mars & Beyond na ESA.

Já Roberto Aceti, CEO da OHB Italia, disse que a empresa está “orgulhosa” por ser escolhida e que o contrato reflete a confiança na equipe e em décadas de experiência em sistemas espaciais complexos. Pela Tyvak International, o CEO Fabio Nichele afirmou que a empresa está animada com o desafio de entregar um pequeno satélite com grande contribuição para o estudo do Apophis, destacando o papel de satélites pequenos e inovadores na ciência planetária e na proteção do planeta.


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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Hemerson é editor, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.