Atrasos na Starship empurram pouso lunar da Artemis 3 para 2028
Documento interno da SpaceX indica que o primeiro pouso tripulado na Lua com a missão Artemis 3 só seria possível em 3 anos

A NASA pode ter de adiar em mais de um ano o próximo pouso de astronautas na Lua. Segundo matéria do site Space.com e um documento interno da SpaceX citado pelo Politico, o novo cronograma da nave Starship empurra a possibilidade de uma missão tripulada da Artemis 3 para setembro de 2028. O ajuste expõe o desafio de alinhar a agenda ambiciosa da agência espacial com o ritmo real de desenvolvimento de uma nave totalmente reutilizável.
Pelo plano atual da NASA, Artemis 3 deveria decolar em 2027. A SpaceX, porém, prevê o primeiro teste de reabastecimento em órbita entre veículos Starship apenas em junho de 2026 e um pouso lunar não tripulado em junho de 2027.
Se tudo correr bem nesses marcos, a própria empresa estima que a primeira tentativa de pouso com astronautas na superfície lunar só poderia acontecer no fim de 2028.
Como o novo cronograma muda a volta à Lua
De acordo com o documento interno citado pelo Politico, a SpaceX ainda não apresentou essas datas oficialmente à NASA. A empresa planeja incluí-las em um “cronograma mestre integrado” que deve ser entregue em dezembro. A SpaceX reconhece que o novo plano extrapola o contrato original com a agência e pretende renegociar os prazos em conjunto com a NASA.
Enquanto isso, o restante do programa Artemis segue avançando. A Artemis 2, missão que levará astronautas a orbitar a Lua sem pouso, está prevista pela agência para não antes de fevereiro de 2026. Vale lembrar que a Artemis 1, o voo de teste não tripulado ao redor da Lua, ocorreu em novembro de 2022.
Se Artemis 3 atrasar para 2028, o intervalo médio entre missões Artemis ficará superior a 2 anos. A título de comparação, durante o programa Apollo entre 1968 e 1972, a NASA lançava em média 1 missão a cada 4,5 meses.
Portanto, isso ressalta um cenário atual muito mais complexo, com múltiplos parceiros comerciais e tecnologias ainda em desenvolvimento.
Testes cruciais de reabastecimento em órbita
Para cumprir seu papel na Artemis 3, a Starship precisa provar capacidades que nenhuma nave já demonstrou. Um dos passos críticos é o reabastecimento de propelente criogênico em órbita entre duas naves Starship. Essa etapa é essencial porque o módulo lunar da Starship deverá ser reabastecido no espaço até 12 vezes para acumular combustível suficiente para descer à superfície, decolar de volta e se reencontrar com a cápsula Orion em órbita lunar.
Em termos simples, reabastecimento criogênico em órbita é como fazer um “abastecimento no ar”, só que com tanques de combustível extremamente frios, em gravidade quase zero e em velocidades orbitais. Qualquer falha pode comprometer toda a missão, o que explica por que esse é um dos focos do novo cronograma.
Além disso, a SpaceX ainda precisa realizar um pouso lunar não tripulado da Starship em 2027 antes de receber astronautas a bordo. Só depois desses marcos a empresa considera viável um pouso tripulado, estimado internamente para setembro de 2028 (se não houver novos contratempos).
O que a Starship já fez e o que falta fazer
A Starship entrou na fase de voos de teste em 2023, combinando pela primeira vez o estágio superior e com o super propulsor Super Heavy. Em 2 anos, o veículo acumulou marcos importantes, incluindo a recuperação de um booster Super Heavy pelas estruturas de torre, apelidadas de “Mechazilla”, que funcionam como braços para “agarrar” o foguete no retorno.
O ano de 2025, porém, foi mais turbulento. Dos 5 lançamentos da Starship, os 3 primeiros não foram considerados bem-sucedidos e resultaram na perda do estágio superior, seja no espaço, seja na reentrada. Só os 2 últimos voos do modelo “Block 2” conseguiram demonstrar de forma consistente capacidades chave, com pousos suaves no oceano do veículo em 26 de agosto e 13 de outubro.
A SpaceX busca algo que ainda não existe em nenhum lançador orbital em operação. Reutilização completa de todo o sistema. A empresa já domina o reuso de estágios do foguete menor Falcon 9, que soma mais de 500 lançamentos com boosters voando novamente, mas o segundo estágio do Falcon continua descartável. No caso da Starship, a meta é reutilizar tanto o booster quanto a nave.
Do ponto de vista da NASA, porém, o que realmente conta para a Artemis 3 é a capacidade da Starship de decolar, se reabastecer em órbita, pousar na Lua, decolar da superfície, retornar à órbita lunar e se encontrar com a Orion.
A aterrissagem de volta na Terra e a reutilização no longo prazo são importantes para a economia do sistema, mas não são criticais para esse primeiro pouso tripulado.
Comparação com Apollo e a nova corrida espacial
O Politico contextualiza o atraso lembrando que a prioridade de voltar à Lua ganhou forte peso político durante o governo de Donald Trump, quando o pouso com astronautas foi transformado em meta de curto prazo. Porém, décadas depois da Apollo, a agência enfrenta um cenário bem diferente. Mais restrições orçamentárias, dependência de fornecedores privados e maior escrutínio político.
Além disso, existem preocupações com cortes em centros de pesquisa. Parlamentares democratas acusam a NASA de aproveitar uma paralisação do governo para fechar prédios no centro Goddard, em Maryland, o que levantou temores de cortes permanentes alinhados a propostas orçamentárias da Casa Branca.
Para a comunidade científica, esse ambiente de incerteza reforça o risco de novos atrasos em grandes projetos de exploração.
Por que esse atraso importa para a ciência
A Starship é peça central para os planos da SpaceX de levar cargas pesadas e, no futuro, grandes contingentes de pessoas a Marte. O CEO Elon Musk já declarou a ambição de enviar até 1 milhão de pessoas ao planeta vermelho em 20 anos. Segundo o Space.com, antes de mirar Marte, a nave precisa cumprir a tarefa mais imediata de levar astronautas da NASA à superfície lunar.
Do ponto de vista científico, o novo cronograma impacta mais do que uma data simbólica de pouso. Cada missão Artemis é pensada para construir, passo a passo, uma infraestrutura de exploração sustentada na Lua, com experimentos de geologia, testes de tecnologias de suporte à vida e demonstrações de sistemas que serão reutilizados em missões a Marte. Quanto maior o intervalo entre voos, mais lento o acúmulo de dados e a validação dessas tecnologias.
Há também o efeito sobre a própria arquitetura de exploração. A exigência de até 12 reabastecimentos em órbita para uma única missão Artemis 3 é um laboratório em escala real para operações complexas no espaço profundo. Se der certo, esse modelo abre caminho para missões científicas mais ambiciosas, com sondas e módulos maiores e mais robustos. Se falhar ou atrasar demais, pode forçar a NASA a repensar sua estratégia ou buscar alternativas de parceiros.
Segundo as reportagens, a NASA pode ficar “refém” do ritmo de desenvolvimento da Starship para cumprir seu cronograma lunar. A agência ainda não anunciou uma decisão oficial sobre o adiamento, mas a divergência entre as datas internas da SpaceX e o plano público da Artemis indica que a negociação entre as equipes técnicas e os gestores políticos será intensa nos próximos meses.
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