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Uma breve história sobre Carl Sagan

Uma breve história sobre Carl Sagan

Carl Edward Sagan nasceu nos Estados Unidos, em 9 de novembro de 1934. Morou em Nova Iorque e desde pequeno sabia que queria estudar sobre o Universo. Entre suas melhores histórias, existe aquela que ele entra em uma biblioteca e pede um livro sobre as estrelas. Para sua surpresa, a bibliotecária lhe trouxe um tabloide com atores e atrizes de Hollywood. É nesse contexto que Carl pensou que algo de errado estava acontecendo com o ensino de ciências, no caso, a Astronomia.

A divulgação científica sempre esteve entre as discussões nas universidades, mas poucas destas conversas deixavam os muros para atingir o grande público. Muitos acadêmicos não se interessavam em divulgar suas pesquisas para o grande público, afirmando que o povo não se interessaria por seu trabalho. Outros, simplesmente diziam que quem quiser aprender sobre determinado assunto, deve estudá-lo. Se entender o que está estudando, ótimo, se não, faça outra coisa de sua vida.Ao contrário do que alguns de seus acadêmicos equivalentes fizeram, Sagan decidiu transpor os muros das universidades e romper a ideologia de que o conhecimento deve somente estar atrelado à academia.



Divulgar e tornar a ciência interessante é uma das diretrizes da divulgação científica, além de ser uma importantíssima ferramenta de aprendizado. Ela faz com que a população, em sua maior parte, tome conhecimento sobre as pesquisas e descobertas científicas passadas, atuais e futuras. Mostrar o que está sendo pesquisado, com o dinheiro dos impostos pagos pela população, é extremamente necessário para que as pesquisas não sejam vistas como desperdício de dinheiro.

Não podemos deixar que os laboratórios, nos tempos atuais, tenham o mesmo destino da biblioteca de Alexandria. A famosa biblioteca concentrava incontáveis volumes traduzidos de milhares de estudos das mais diversas regiões do mundo. Novos estudos eram perpetrados com base nas leituras de livros (papiros e pergaminhos), que somente existiam em Alexandria.

Como a população estava alheia às pesquisas correntes no interior da biblioteca, julgaram que as atividades da biblioteca eram dispensáveis e, em um momento de revolta provocada por motivos religiosos, incendiaram a maior biblioteca da antiguidade. Não temos a menor ideia das maravilhas que perdemos com o incêndio. Alguns exemplares foram resgatados quase ilegíveis, nos deixando ainda mais tristes com a perda de um local tão importante para o conhecimento humano.

“Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto.” Carl Sagan

A não divulgação, ou a péssima divulgação científica, podem fazer com que novas Alexandrias sejam queimadas. Sagan não foi o primeiro a se preocupar com a divulgação para aqueles que não estavam diretamente ligados à ciência. Einstein, no começo do século XX, já se preocupava com tal questão, porém, na década de 80, Carl conseguiu levar a ciência a milhões de lares ao redor do mundo, através da maravilhosa série Cosmos, dividida em 13 capítulos.

Com ela, viajamos através das principais descobertas científicas da humanidade, em todas as épocas, da Grécia antiga ao pouso na Lua, da formação da vida ao limite do Universo. Recomendo à todos que assistam aos capítulos originais e também a nova temporada de 2014, estrelada por Neil deGrasse Tyson.

Além da série de televisão, escrita juntamente com Ann Druyan e Steven Soter, Sagan escreveu muitos livros, com foco na Astronomia, mas não deixava de nos apresentar outras áreas do conhecimento, como biologia, filosofia e história. Sua escrita poética era um dos seus maiores atrativos, pois mostrava a forma apaixonada de nos contar sobre as pesquisas e descobertas. Ele era mais do que um divulgador e cientista, Sagan era de fato o verdadeiro comunicador científico.

Em seus livros, Carl Sagan expressa sua paixão pela ciência. Ele mesmo dizia que divulgar a ciência era como estar apaixonado, você precisa contar pra todo mundo.

Há muitos anos, li o primeiro livro do Carl. Não me recordo qual foi, mas acredito que tenha sido o livro “Contato”. Gostei do romance, porém a ciência implícita no livro me chamou mais a atenção do que o enredo. Foi aí que começaram meus estudos sobre Astronomia e o Universo.

Além da atividade de divulgador, Sagan exerceu o papel de diretor do JPL – Jet Propulsion Lab (Laboratório de Propulsão a Jato) da NASA. Ele coordenou as missões que levaram as sondas Voyager I e II ao espaço, ambas portando um disco de ouro com informações sobre a biologia terrestre e nossa localização no Universo. Quando a Voyager estava muito distante, quase deixando Saturno para trás, Sagan pediu à Nasa para que a câmera da sonda fosse virada para a Terra e registrasse o nosso planeta de uma distância jamais antes vista, cerca de seis bilhões de km. O resultado foi uma foto que mostra o nosso lugar perante o Universo e o quão insignificantes somos. É claro, Carl usou seu dom poético para apresentar a nossa insignificância, através da sua obra “Pálido Ponto Azul”.

Carl Sagan nos ensinou e ainda ensina, através de seu legado, que a melhor forma de abordarmos um problema é sermos céticos. Precisamos de evidências para não cairmos nas mãos de enganadores profissionais e de charlatões. Devemos duvidar até mesmo de nossas certezas e buscar o conhecimento para sermos seres melhores e podermos ajudar a entender o Universo. Temos que utilizar as ciências com cuidado e estarmos sempre prontos para confrontar nossas crenças com novos fatos. Devemos sempre pensar racionalmente e não podemos nos deixar levar por mitos e medos infantis. Devemos ser sérios e responsáveis com nós mesmos e com o planeta em que vivemos.

Infelizmente, escrevo este texto para lembrar que já se passaram vinte anos do falecimento desta extraordinária pessoa. Ele abriu nossos olhos para a ciência e nos fez olhar para as estrelas de forma diferente. Seu incansável senso de responsabilidade educacional trouxe melhorias na maneira de pensarmos as ciências. Elas não são coisas de outro mundo, às vezes são, mas é possível aprendê-las. A Astronomia, por exemplo, não é restrita a um grupo de pessoas. Ela é um bem da humanidade e, para usá-la, basta sermos curiosos e olhar para as estrelas.

A ciência é um bem da humanidade e Carl nos lembrou disso. O Universo é nossa morada e devemos explorá-lo como se estivéssemos no quintal de casa. Muitas vezes pensei como seria se ele ainda estivesse vivo. Hoje, ele estaria com 82 anos e não duvido que ainda divulgasse com a mesma energia de antes. Talvez um pouco decepcionado com algumas decisões que a humanidade anda tomando, porém feliz em ver os avanços que fizemos na exploração espacial e em outras áreas.

O legado que ele deixou será para sempre lembrado. Ao invés de ficarmos tristes (mesmo que inevitavelmente fiquemos) devemos nos alegrar por ter existido alguém igual a ele e que ensinou de forma incansável que o Universo existe para ser explorado.

Foto: Evelyn Hofer, Time Life Pictures/Getty

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Leonardo S. Mauro

Graduando em Física, com especialização em Ensino de Astronomia e Mestrando em Filosofia Astronômica.

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